SETE CAMINHOS PARA A PAZ

 

 

ROTARY INTERNATIONAL

 

 

 

Evanston                                      Zurich

   

 

Distributed in service to the ideals of Rotary 
by Robert Stewart, C.A. , C.M.C.
Rotary Club of Okotoks , Alberta , Canada (District 5360)
To celebrate Rotary’s 100th Anniversary
Centennial Celebration in 2005

 

Copyright, 1959

ROTARY INTERNATIONAL

Direitos Reservados

 

Primeira edição em inglês, abril de 1959

Primeira edição em Português, abril de 1965

 


 

 

Sumário

 

A Origem dos Caminhos

O Caminho do Patriotismo

O Caminho da Conciliação

O Caminho da Liberdade

O Caminho do Progresso

O Caminho da Justiça

O Caminho do Sacrifício

O Caminho da Lealdade

Impacto

Normas do Rotary International em

Serviços Internacionais

 

 


Forward

by Robert Stewart, Rotary Club of Okotoks, Alberta , Canada (D5360) and Director of Canadian Centres for Teaching Peace http://www.peace.ca ; email stewartr [at] peace.ca

I can not tell you how happy I was to learn of such a wonderful publication.  The Rotary International  publication "Seven Paths to Peace" is as relevant today (2004) as it was when it was written in 1959.  In fact, I was amazed at the wisdom contained in this book published 45 years ago.  I have been doing a lot of research into peacebuilding and peace education over the past 9 years (a passion that was ignited in me by Rotary) and I learned a lot from the book, particularly from a Rotary point of view.

It is very important for me to understand the history, current perspective and future path Rotary is following to peace.  I think this is important for all Rotarians to understand – this is a ‘must read’ for anyone genuinely interested in Rotary.  It is also recommended to non-Rotarians interested in building peace.

When you read the book, you will note that the male gender is used in general.  At the time the book was written, there were no female members of Rotary.  Please consider the male gender usage interchangeable for both genders.

How important is this?  As you will read in the Introductory Chapter ‘Where the Paths Begin’, “… Rotarians believe that if there is failure in the avenue of international service, there may be no need for concern about the other avenues of service. …  and this book is presented in the hope and belief that there are thousands (now millions) of hands which up to now have not been lifted – but which now may be persuaded to row a new and firm course.”

Why should this book be any more relevant now than in 1959?  Two things immediately come to mind: Rotary is now doubled in size (over 1.2 million members around the world) and we have the strong contribution of female members.  We can also lever our contributions through partnerships with other like-minded organizations (eg. Lions International, YM/YWCA, religious organizations, etc., etc.).  However, the most significant change in the past decade – what makes rather considerable progress possible today is what I call 'E-peace' - that ability to magnify everything one does, and the related communication and information transfer, at least ten-fold through the use of computer and Internet, around the world instantly. E-peace surely will make community and world peace more of a reality within our, and our children's generation. For example, any Rotarian can belong to a number of Rotary On The Internet (ROTI) email listservers to facilitate peace communications and action around the world.  Rotary can have a central peacebuilding website to disseminate important peace education information.  Much of the moral support and information for our web site comes from these networks.  This book is now available on the Internet accessible to all, after almost being lost over the past 45 years (at http://www.peace.ca/rotaryssevenpathstopeace.htm ).

The bottom line is that peace in our families, communities and world is achievable. The Carnegie Institute conducted a study on Preventing Deadly Conflict that concluded, "It is not that we do not know what to do ... it is that we do not act." The reason that it (peace) has not been achieved is one of motivation: world and community leaders have not been motivated to raise their awareness and work together in co-operation to achieve peace. Education, awareness and knowledge of how each can make a difference will motivate people and get them to demand action from our institutions such as government.  This important book shows us how.

Happy reading, and ‘may the force of Rotary be with you’ as you help to build peace in our communities and world.


A Origem dos caminhos

 

Este livro trata, principalmente, dos rotarianos e dos caminhos que eles estão seguindo em busca da paz mundial. Os rotarianos não têm o monopólio dos caminhos da paz e nem afirmam que existem apenas sete. Além dos que se expõem nestas páginas, há outros caminhos da paz, porém os rotarianos no decorrer de mais de um século de existência dos Rotary Clubs desenvolveram, através de debates e ação, várias declarações concretas sobre a paz e a maneira de conseguí-la.

Os rotarianos – mais de um sete milhões deles – pertencem ao Rotary Clubs em mais de 300 países e conquanto cada clube tenha autonomia própria há entre eles o que talvez se possa definir como "compreensão" de alcance mundial sobre certos assuntos. Em suas Convenções, os rotarianos concordam que certas palavras expressam aquilo que realmente crêem. O conselho diretor, que representa todos os rotarianos, também tem deliberado sobre os alvos de Rotary concernentes à paz, e muitas vezes de acordo com as recomendações de comissões ou de outros rotarianos. O objetivo de Rotary consta de quatro partes ou avenidas:

O objetivo de Rotary é estimular e fomentar o ideal de servir como base de todo empreendimento digno, promovendo e apoiando:

Primeiro: O Desenvolvimento do companheirismo como elemento capaz de proporcionar oportunidade de servir;

Segundo: O reconhecimento do mérito de toda ocupação útil e a difusão das regras da ética profissional.

Terceiro: A melhoria da comunidade pela conduta exemplar de cada um na sua vida pública e privada; e

Quarto: A aproximação dos profissionais de todo o Mundo, visando a consolidação das boas relações, da cooperação e da paz entre as nações.

 

O quarto parágrafo é chamado "A Avenida dos Serviços Internacionais", porém é o primeiro parágrafo que põe em execução a genialidade de Rotary em matéria de serviços internacionais. "O desenvolvimento do companheirismo como elemento capaz de proporcionar oportunidades de servir" indica o essencial - como? Aí, na alma singela de Rotary, reside o impulso que em 1905 promoveu a união de Paul Harris e seus amigos em Chicago. O companheirismo é o dom especial do Rotary para fomentar a compreensão, a boa vontade e a paz e é também a sua fórmula simples de sucesso para vencer o isolamento que existe entre os homens. O conhecimento amaina as tensões nos negócios, cria centelha que inspira as ações desinteressadas em benefício da comunidade, tornando-se a solução básica que o Rotary oferece para resolver os problemas que separam e dividem a humanidade.

Se o que foi dito pode parecer elementar ao rotariano experiente, deve-se lembrar que os não rotarianos têm também profundo interesse no que os rotarianos têm feito e estão fazendo, a fim de criar condições em que a paz possa existir. Tradicionalmente, os rotarianos vêm compartilhando os seus conhecimentos em assuntos internacionais e nunca vacilam em exercer uma influência impulsora. Este livro é dedicado também aos que não são rotarianos.

O Rotary International é uma associação de Rotary Clubs autônomos, não um organismo que dita medidas de caráter coletivo. A única coisa que abraça é o objetivo de Rotary e as normas e projetos específicos para levar a efeito esse objetivo.

Inspirados pelo sentimento de uma paz baseada no companheirismo mundial e conscientes da sua grande necessidade, os rotarianos têm procurado os meios para promover a compreensão entre os homens de diferentes países, credos e raças. Elaboraram, também, em colaboração com outros, um Esboço das Normas no setor dos Serviços Internacionais que foi adotado pelo Conselho Diretor do Rotary International. Como a finalidade deste livro é desenvolver os sete aspectos dessas Normas, pois aplicam-se ao rotariano individualmente, convém apresentar maiores antecedentes.

Essas Normas são o resultado de árduos estudos realizados por meio de um questionário que foi enviado aos rotarianos do mundo inteiro. Pediu-se aos rotarianos que se haviam destacado pelos seus interesses em serviços internacionais para analisarem os seus sentimentos e descreverem as suas atitudes a respeito de assuntos mundiais. A finalidade era a de se formular uma declaração aplicável aos homens de todos os países, que expressasse o que significa ter o conceito internacional de um rotariano.

As respostas a esses questionários refletiam muitos e variados aspectos de valiosa experiência. Mesmo aos que se caracterizavam pelos seus interesses em assuntos internacionais, o panorama não era o mesmo quando considerado por uma vila nos Andes, por uma grande metrópole ou por uma populosa cidade da Ásia. As comissões do Rotary International passaram muitas horas comparando e relacionando o material recebido de modo que pudesse ser resumido em uma declaração que incluisse todo o essencial.

A declaração resultante revela a avenida de serviços internacionais como uma afirmação da soberania do espírito humano. Essas normas denotam ação. São dirigidas aos homens conscientes da realidade, informados dos acontecimentos e sensíveis às necessidades da humanidade – não aos apáticos e indiferentes.

 

Responsabilidade do Rotariano

 

Espera-se que cada rotariano preste a sua contribuição pessoal para a efetivação do ideal preconizado na quarta avenida de serviço.

 

Espera-se que cada rotariano conduza a sua vida particular diária e as suas atividades comerciais e profissionais, de tal forma, que se torne um cidadão leal e servidor da sua própria pátria.

 

Cada rotariano, onde quer que resida, trabalhando como um indivíduo, deve ajudar a criar uma opinião pública bem informada. Essa opinião afetará inevitavelmente a orientação governamental concernente à compreensão e boa vontade universais para com todos os povos.

 

Isto é apenas o início do Esboço das Normas em serviços internacionais, porém não há dúvida que está dirigido a cada rotariano, onde quer que esteja. Prosseguindo, há uma análise dos pontos em que o rotariano exercerá a sua liderança. O grande valor dos sete caminhos é que são baseados na experiência de rotarianos do mundo inteiro. O valor da reflexão individual se multiplica com o auxílio de muitas mentes indagadoras. Não se pretende que seja a última palavra. A declaração é apenas o impulso inicial – um desafio ao pensamento independente.

Poderiam os senhores escolher estes caminhos e seguir o curso de serviços que indicam?

Uma decisão de tal importância não deve ser feita sem ponderação. Pouco é aproveitado pelos que lêem a declaração superficialmente, aprovando-a ou rejeitando-a como impraticável ou mesmo elogiando-a como aquele que foi dar a sua opinião sobre um ovo famoso, dizendo ser "bom em partes". Se não se meditar sobre a declaração, ela poderá ser facilmente esquecida.

Assim sendo, não se apresentará neste ponto o restante da declaração sobre as "Responsabilidades do Rotariano", pois cada um dos sete capítulos seguintes trata de uma parte dessa declaração. A introdução de cada capítulo se refere à respectiva parte. Cada um dos sete caminhos faz um exame minucioso das condições e problemas atuais, considerando também as oportunidades de serviço. O capítulo final, intitulado "Impacto" apresenta exemplos do impacto de Rotary, sendo cada um deles uma outra oportunidade em si nos caminhos conducentes à paz entre os homens.

A vitalidade e o impacto de Rotary nesta cruzada dependem do número de rotarianos e outros que seguirem estes caminhos. Mais importante ainda, no entanto, é a possibilidade de que a humanidade possa, de alguma forma, evitar a calamidade da guerra e a ruína completa da civilização. É por isso que os rotarianos crêem que se se fracassar na avenida de serviços internacionais, será inútil preocupar-se com as outras.

O dilema atual da humanidade pode ser comparado com a situação em que os tripulantes do Kon-Tiki se encontraram em 7 de agosto de 1947. Nesse dia, a correnteza em direção ao oeste, que por 6.900 quilômetros havia arrastado a balsa e os seus seis tripulantes pelo Pacífico, empurrava agora a frágil embarcação cada vez mais perto do recife Raroia. Eis que um vento norte muda o rumo da embarcação por algum tempo, porém o recife de coral, à distância, ainda parecia tenebroso e apresentava perigo. De repente o vento parou e vagarosa mas implacavelmente a balsa rumava contra o recife de coral. O mar que até então estava calmo, começou a se agitar com vagas enormes que iam se arrebentar contra o recife. À medida que o Kon-Tiki se aproximava do recife o estrondo ensurdecedor dos vagalhões aumentava. Ao longe, a tripulação podia ver uma laguna calma e um grupo de ilhas com as suas majestosas palmeiras. Porém, os seus pensamentos estavam longe dessa paisagem idílica, com a balsa a aproximar-se cada vez mais do penhasco. A tripulação não dispunha de braços necessários para dominar a correnteza que os arrastava.

Se a balsa se desintegrasse contra o rochedo os tripulantes todos pereceriam. Se aguentasse firme, talvez eles pudessem escapar a nado em direção à laguna. Se as vagas levantassem a balsa acima do recife, então, poderiam viver para contar a história.

A alegoria é calra. A humanidade tem levado a civilização através de intermináveis e difíceis caminhos e agora se vê ameaçada do perigo de aniquilação total com a guerra nuclear. Quer seja este ano, no próximo, daqui a dez anos ou quando quer que seja, é incontestável que caminhamos em direção à guerra. Já se destacam no horizonte os aguçados e ameaçadores penhascos. Há alguma forma de evitá-los... um caminho ainda não descoberto? Há a necessária ajuda para vencer a correnteza que nos arrasta para a destruição?

Sim, felizmente há uma forma e este livro é apresentado com a esperança e a crença de que há milhares de braços que até o momento estavam cruzados, mas que agora decidiram remar e iniciar um novo e seguro rumo.

 

 


 

 

 

1. O caminho do Patriotismo

Os seus interesses irão além do patriotismo nacional e compartilhará da responsabilidade para a melhoria da compreensão, boa vontade e paz internacionais.

Resistirá a qualquer tendência para agir em termos de superioridade nacional ou racial.*

 

Um catedrático da Universidade de Princeton relata um breve encontro com um marinheiro em San Francisco, que estava de regresso a Chicago, sua cidade natal, depois de haver rpestado serviços por muito tempo na zona do Pacífico. Ao observar que a cidade do "Golden Gate" não o havia impressionado, perguntou o catedrático por que ele não gostava de San Francisco. Depois de refletir por um momento, respondeu o marinheiro com convicção: "Bem, esta cidade não é Chicago".

"Subitamente", observa o catedrático, "compreendi mais sobre o nacionalismo do que li em todos os livros".

 

Breathes there man with soul so dead

Who never to himself has said:

"This is my own, my native land".

Whose heart hath ne'er within him burned

As home his footsteps he hath turned

From wandering on a foreign strand?

If such there breathe, go, mark him well

For him no minstrel raptures swell:

High though his titles, proud his name,

Boundless his wealth as wish can claim-

Despite those titles, power and pelf,

The wretch, concentred all in self,

Living shall forfeit fair renown,

And doubly dying shall go down

To the vile dust from whence he sprung,

Unwept, unhonour'd, and unsung. **

 

Essas inesquecíveis linhas de Sir Walter Scott proporcionam o toque emotivo a essa parte do Esboço das Normas e estabelece a premissa para os serviços internacionais: Espera-se que cada rotariano seja... um cidadão leal e servidor da sua própria pátria. Isso não vem a ser outra coisa que a projeção natural do lema "Dar de si antes de pensar em si".

O nacionalismo, muitas alcunhado como uma atitude medíocre, não o é realmente na sua origem. Em essência, é um sentimento amplo e generoso, do qual somente é incapaz o "egocêntrico". Durante um discurso que pronunciava numa Convenção do Rotary International, um rotariano citou o provérbio latino: "Dulce et decorum est pro patria mori" (Que doce e nobre é morrer pela pátria), continuando:

É preciso um grande senso de patriotismo para que um homem dê a sua vida à sua pátria; porém é preciso um grau ainda maior de patriotismo para que o homem disposto a morrer pela pátria, retifique os rumos errados do seu país. Então isso significa que, o mais alto grau de patriotismo é aquele que vemos em um dos princípios rotários em que se fala sobre a boa vontade e compreensão internacionais, ou seja quando alcança o vigor suficiente para transpor as fronteiras nacionais, incluindo toda a humanidade.

 

Fazendo um retrospecto da jornada percorrida pelo homem no decorrer dos séculos, descobrimos que esse desejo de transpor as barreiras locais é o mesmo em todas as épocas. O troglodita, ao refugiar-se na caverna da sua tribo, preconiza a afirmação do filósofo Hobbes de que "a vida do homem que não se associa com os seus semelhantes é pobre, mesquinha, sórdida, bestial e breve". Quando as tribos, ao resistirem ao invasosr, submeteram-se a uma disciplina de combate, as sementes das relações humanas mais amplas foram planatadas. Mais tarde, apareceram os fossos, pontes e muralhas para proteger os que habitavam no centro – e manter os inimigos ao lado de fora. Com o desenvolvimento das comunicações e expansão da esfera de interesses e atividades dos homens, as cidades e estados começaram a se unir em nações.

No drama Joana D'Arc o célebre Bernard Shaw personifica com grande realismo esse processo social, na cena em que o Duque de Warwick e o Bispo de Beauvais comentam o apelo da Donzela como uma ameaça a seus interesses feudais. Admiram-se de que uma humilde camponesa pudesse vislumbrar algo mais amplo do que a sua fazendola e aldeia e pensar na França como a sua pátria. E, no entanto, assim foi e os seus conterrâneos responderam com exaltação ao seu chamado. "A ordem antiga transformara-se, cedendo lugar a uma "nova ordem". Normandos, bretões, gascões e os demais emergiram dacididos a defender os interesses da pátria.

Semelhantemente, uma "nova ordem" foi articulada por uma estudante japonesa, vencedora de um concurso patrocinado por um Rotary Club, sobre o tema da compreensão e boa vontade internacionais. Escreveu ela:

 

Cada país tem as suas próprias formas de vida cultivadas pela sua história e de acordo com as condições peculiares do meio. É ilógico querer aplicar um único princípio a tão diversas modalidades. No processo de formação de cada nação, moldam-se os seus perfis que a caracterizarão mais tarde ... É, pois, absolutamente necessário que haja compreensão entre as nações e respeito mútuo. Somente assim a amizade e boa vontade poderão florescer antes de surgirem dificuldades ou conflitos...

Deve-se respeitar os direitos humanos fundamentais do indivíduo, mesmo que as idéias dos outros sejam diferentes das nossas, pelo simples fato de se tratar de um ser humano. Da mesma forma, deve-se ter respeito pela soberania de um país, não importando quão diferentes sejam as suas formas de vida. Não é certo desejar-se unicamente a prosperidade e bem estar de um país apenas, sem considerar a felicidade de outros... Somente mediante o estabelecimento de uma amizade firme e verdadeira, baseada na aprovação generosa de outros, poderemos esperar que haja paz eterna no mundo...

 

O caminho do patriotismo para o rotariano, longe de ser um obstáculo, constitui a base para os serviços internacionais. Conduz a uma amizade mais ampla, cimentada no respeito e estima mútuos. O rotariano acredita não haver contradição entre o patriotismo e o conceito internacionalista, do mesmo modo que ser um bom pai de família e um digno cidadão da sua comunidade. Poderia um, realmente, ser conseguido sem o outro?

Alguns, entretanto, crêem que existe contradição. Talvez o estudo da história, que Gibson chamou de "registro de crimes, desatinos e desventuras da humanidade", tenha contribuido para criar esse sentimento. Existe certa classe de patriotismo nutrida por temores e sofrimentos, que fomenta ódios e paixões por motivos egoístas e que se torna, nas palavras do Doutor Johnson, "o último recurso dos canalhas".

A melhor defesa contra esse falso conceito de patriotismo é fazer um cuidadoso exame do orgulho nacional e por onde se envereda. Não crêem que o povo do seu país, de qualquer país, se sentiria mais feliz e seguro se o inimigo de hoje se transformasse em um amigo? Poderá acontecer. Está acontecendo e já aconteceu repetidamente na história. Os franceses e ingleses viveram em constantes lutas por vários séculos. Disputavm a supremacia da Europa com guerras violentas no continente e nos sete mares, desde os sertões da América aos insalubres pântanos da Índia. Mais tarde, tornaram-se amigos. Para os patriotas que combateram nesses dias, essa amizade significaria uma traição inaudita. No entanto, ambos os países se beneficiaram, pois o novo estado de coisas trouxe segurança e prosperidade. Muito do progresso do século dezenove se deve, em grande parte, por haver terminado a hostilidade entre a Inglaterra e a França.

Examinando-se ainda mais a fundo amamos o nosso país devido ao ódio e temor que desperta nos homens de outras nações ou essa hostilidade é, ao contrário, motivo de vergonha e tristeza? Não é evidente que o que mais nos orgulha é a contribuição do nosso país ao progresso espiritual, cultural e material da humanidade? E, não é o verdadeiro patriota o que engrandece a glória do seu país pela projeção dos seus serviços além das fronteiras nacionais?

Através de uma completa análise, o verdadeiro patriota fortalece as suas convicções. Projetando-se os interesses além do patriotismo nacional – como se expõe no Esboço das Normas – o verdadeiro patriotismo se justifica. Porém, como existe um perigo nesse processo de justificação, segue uma advertência do Esboço: Resistirá a qualquer tendência para agir em termos de superioridade nacional ou racial.

Agora, inverteram-se os papéis. A crítica já não é um fator externo encarnado na pessoa do chauvinista. Vê-se, agora, que o inimigo se encontra dentro de cada um de nós, pela tendência humana em procurar superioridade. Não é fácil resistir a essa tendência, pois desejamos, desesperadamente estar certos. E é difícil estar-se certo sem começar-se a sentir virtuoso.

Um rotariano chinês ilustrou com um exemplo, como causam prejuízo às relações internacionais as manifestações arrogantes e indiscretas de superioridade entre o próprio povo e os demais. Classifica-se como um dos maiores empecilhos para o progresso da civilização, a arma secreta dos que se valem dessa tática para estabelecer a desunião com a finalidade de escravizar.

A seguinte carta, escrita em 1793 pelo imperador da China, Ch'ien Lung, ao Rei George III da Inglaterra, ilustra um problema universal desde a infância da humanidade:

 

"Vós, Oh Rei, viveis além dos cofins de muitos mares, porém alentado pelo vosso humilde desejo de participar dos benefícios da nossa civilização, haveis enviado uma respeitosa mensagem... Li-a com muita atenção. Os termos sinceros em que está redigida revelam respeitosa humildade... que merece elogios...

 

Conquanto Vós asseverais que a reverência que sentis pela nossa Dinastia Celestial desperta-vos o desejo de adotar nossa civilização, as nossas cerimônias e leis são tão diferentes das vossas que, mesmo supondo-se que o vosso mensageiro pudesse assimilar os rudimentos da nossa civilização, seria impossível para Vós transportar os nossos costumes e tradições a um país diferente como o vosso ...

 

Na influência mundial, tenho apenas uma meta em vista, que é manter um perfeito governo e cumprir as minhas obrigações para com o estado. Nenhum objeto, por raro e valioso que seja, interessa-me. Se ordenei que o tributo que Vós enviastes, Oh Rei, fosse aceito, foi unicamente em consideração ao espírito que vos levou a remetê-lo de terras tão distantes. As nobres virtudes da nossa Dinastia têm penetrado em todos os países da terra e os Reis de todas as nações têm oferecido os seus tributos preciosos por mar e por terra. Como o vosso embaixador poderá constatar por si mesmo, possuímos todas as coisas...

 

No entanto, no nosso íntimo temos a tendência de alardear a nossa superioridade. Vê-se essa atitude com turistas, nos que vivem no exterior, na recepção de imigrantes ou no tratamento de pessoas de outras raças. As afirmações grosseiras de superioridade não produzem maior ressentimento do que as atitudes de condescendência com tons de superioridade. Fazem parte do ódio que envenena as relações internacionais.

Um rotariano do Texas, EUA, e a sua senhora, viajando pela França, pararam para pernoitar num hotelzinho de uma vila. A senhora que os recebeu, certamente havia ouvido falar do Texas, pois sorriu amavelmente quando viu o chapéu típico do visitante. "Minha senhora e eu desejamos um quarto", disse o texano. A pobre senhora, ouvindo essas palavras esboçou um sorriso muito encabulado.

Há quartos, não há, minha senhora?

Oui Monsieur, há quartos, mas eles não são o que os americanos chamam de "modernos". Não são os melhores, monsieur.

"Madam", em nossa terra a única coisa que precisamos é de um cobertor e de um montinho de feno. Ficaremos encantados de passar a noite aqui.

 

Este é um bom exemplo da humildade pessoal e respeito que fortalecem as relações internacionais.

Encontraremos o caminho do genuíno patriotismo se reconhecermos que, pessoalmente, poderemos contribuir à nossa grandeza nacional ou racial e que, individualmente, as realizações de muitas pessoas de outras nações e raças são muito superiores às nossas. O que está ao nosso alcance é a determinação de sermos úteis, estabelecendo amizades com eles.

Os rotarianos gozam de privilégios especiais no setor do estabelecimento de amizades. Para se citar apenas um exemplo, há muitos Rotary Clubes, cujos quadros sociais são formados por indivíduos de diversas nacionalidades e a sua colaboração harmoniosa é tida como um importante serviço à comunidade, sem se mencionar a sua ampla influência no fomento da confraternização mundial. Assim concebeu um dos pioneiros do Rotary:

 

"Se o Rotary tivesse sido criado especialmente com o objetivo de servir somente nessa capacidade, não se poderia pensar em um modo mais perfeito. Não ofende crença alguma, pois todas as religiões são igualmente acolhidas em seu seio. Não encerra segredos, nem tem rituais misteriosos que possam criar dúvidas nas mentes dos não-rotarianos. E, mais grato ainda, o seu grande objetivo é a simplicidade em si, compreensível a todos os homens. Que esplêndido estandarte para um mundo sofredor".

 

Deve ficar claramente entendido, porém, que a abolição das diferenças nacionais, religiosas e culturais, não faz parte do programa rotário. Pelo contrário, a diversidade das expressões humanas é considerada como um aspecto feliz e nunca como uma barreira para a compreensão e colaboração. Num mundo em que que as distâncias estão sendo cada vez menores, nesta era de aviões a jato, que insípido seria se a gloriosa variedade desta terra fosse reduzida a uma uniformidade monótona! Grande parte do interesse e também do prazer dos serviços internacionais reside na descoberta dessas valiosas diferenças.

Não se trata com isso de reduzir os problemas criados por essas diferenças, pois os rotarianos em mais de 160 países e regiões geográficas têm razões especiais para estar conscientes desses problemas. A seguinte história, ocorrida na União Sul-Africana, exemplifica a ação rotária, face às diferenças e perigos. Certo dia, após uma série de graves revoltas em cidades das imediações, o Rotary Club havia organizado um concerto, sob os seus auspícios, dado por vencedores de um festival musical Bantu. Dentre os prêmios a serem entregues, figurava um troféu oferecido por um rotariano das Ilhas Britânicas e, devido às circunstâncias, pensaram talvez não ser prudente que os rotarianos comparecessem ao concerto em companhia de suas esposas.

Porém, os sócios do clube considerando o assunto, sentiram-se mais animados, pois haviam conseguido muito progresso, localmente, em matéria de relações raciais, com as eleições africanas seccionais, clubes esportivos e uma campanha sobre o problema da moradia. Assim pois, os rotarianos e suas esposas foram ao concerto.

A sua decisão foi generosamente recompensada. No discurso de encerramento, o africano encarregado do festival, dirigindo-se aos ouvintes, na maioria africana, disse:

 

"O que é esse movimento rotário e como poderemos explicar que um rotariano da Grã-Bretanha tenha enviado um troféu para nós? Esses rotarianos crêem que devem trabalhar para conseguir melhores relações raciais entre todos os povos do mundo e nós, africanos, vimos com os nossos próprios olhos, como esse grupo de europeus pratica o que prega. Nós, africanos, devemos ajudar esses homens no seu trabalho. Estamos progredindo sem violência. Não precisamos de violência".

 

Progredindo sem violência. Poderá existir um desejo mais patriótico para qualquer homem de qualquer país?

O caminho do patriotismo é um caminho de serviços pessoais e tangíveis em todos os países. Todos os dias há incidentes em que o verdadeiro patriota tem a oportunidade de expressar o seu conceito sobre o nacionalismo como uma forma de vida generosa e ampla. Para ele, as festas cívicas não são ocasiões de alarde de glórias, mas sim datas que o faz lembrar da sua responsabilidade de contribuir para que haja respeito entre todos os povos. Ele aproveitará todos os meios disponíveis ao rotariano para estabelecer amizades com os povos de todos os países e raças, pois aí repousa a esperança e glória da sua querida pátria.

 


 

 

2. O Caminho da Conciliação

 

Procurará encontrar e desenvolver bases comuns para chegar a um acordo com os povos de outras nações. *

 

O Ministro das Relações Exteriores do Canadá relatou à Convenção do Jubileu de Ouro do Rotary International esta história referente a uma visita à fronteira do Afganistão:

 

Quando aí chegamos, reparamos que haviam colocado uma corrente no meio da estrada. A um lado da corrente, estava o sentinela do Afganistão e do outro, o sentinela do Paquistão. O sentinela do Afganistão estava armado até os dentes. Eu não sabia o que poderia acontecer se atravessasse a fronteira. Então, ainda em território do Paquistão, estendi a mão ao sentinela do Afganistão e sorri. Imediatamente ele colocou a carabina em cima de uma pedra e, com um grande sorriso, convidou-me a passar para o outro lado. Assim fiz, apertando-lhe a mão num caloroso cumprimento.

O Rotary convida e auxilia todos os homens a transporem a corrente do preconceito e orgulho nacionais e a cumprimentarem-se calorosamente, para que possa crescer e prosperar na sua grande obra.

 

Os sorrisos e apertos de mão são os passaportes universais da compreensão. Amainam tensões e criam um ambiente em que a conciliação de disputas se torna possível. Entretanto, não resolvem os conflitos por si. Os que refletem sobre o assunto, perguntam com sinceridade, como será possível convencer as nações com sistemas de vida e de governo tão diferentes, a realizarem as suas aspirações sem recorrerem à violência?

Há uma fábula que expõe a raiz de vários obstáculos que impedem a conciliação. É a história de um anjo que apareceu durante uma conferência realizada pelos altos representantes de nações poderosas do mundo. O anjo anunciou que o Céu estava muito desgostoso com as discórdias havidas. "A dificuldade" disse o anjo, "consiste em que cada um de vós podeis vetar o que o outro quer. Fui instruído a conceder um desejo a cada um de vós – um desejo que os outros não poderão deixar de satisfazer".

Um dos representantes, rapidamente, respondeu: "Desejo que um amremoto arrase o seu país".

"Bem", exclamou o outro diplomata: "se é assim, desejo que o seu país seja aniquilado completamente por uma grande epidemia".

Depois de um minuto de silêncio, o mensageiro celestial dirigiu-se ao terceiro delegado. "A única coisa que desejo", disse ele modestamente, é uma boa chícara de chá, porém não se apresse, atenda primeiro os pedidos desses dois senhores".

Não simboliza essa fábula, com grande realidade, as bases sobre as quais as nações grandes e pequenas tratam do processo de conciliação? Sem desejarem a exterminação física do outro, existe implícita suposição de que a premissa de todo acordo é que o adversário renuncie definitivamente a todos os seus princípios e aspirações – caso contrário o acordo seria impossível. Essa atitude revela um mundo em que cada nação "prosseguiria sozinha", se necessário, vencendo as dificuldades com outras nações pelo completo desprezo dessas dificuldades.

Procurará encontrar e desenvolver bases comuns para chegar a um acordo com os povos de outras nações. Isso não implica de modo algum o desejo de que uma nação se transforme na imagem de outra. O que se propõe é uma análise e, sem paixões, das condições reais, bem como das necessidades e aspirações dos povos. Não se espera que nenhum lado renuncie aos seus princípios ou propósitos no acordo, mas sim que procure confirmar seus objetivos nos benefícios que resultarão pela colaboração. Com essa atitude, considera-se que os outros países – longe de serem entidades estranhas e externas que possam ser ignoradas – estão constituídas por homens como nós e que, devido a essa semelhança, é possível chegar-se a acordos, soluções e convênios que sejam benéficos a todos os interessados.

Parece isso muito idealista? De modo algum. A história está repleta de exemplos que provam o realismo dessa atitude. Por séculos, os muçulmanos e cristãos lutaram pela supremacia mundial. Nenhum grupo abandonou o seu alvo, porém o conflito foi substituído pela tolerância mútua na busca de outros interesses. A Rússia e a Grã-Bretanha estiveram envolvidas em hostilidades diplomáticas durante todo o século dezenove e, no entanto, foram aliadas nas guerras mundiais. Os beligerantes da segunda guerra mundial, em vários casos, tornaram-se bons amigos.

Os resultados dependem também da atitude tomada pelos beligerantes. Diz-se que dois proprietários brigavam com frequência sobre a demarcação dos seus terrenos. Fnalmente, um deles, desgostoso pelas constantes desavenças, decidiu vender a sua propriedade. Depois da venda, explicou o problema ao novo proprietário. "Você terá aborrecimentos com o seu vizinho", disse ele. "Ele crê que a cerca deve estar um metro e meio dentro do seu terreno. Prepare-se para ir a juízo".

Assim que o novo proprietário tomou posse da nova casa, o vizinho surgiu correndo e muito exaltado. "O senhor terá que mudar a cerca, pois está um metro e meio dentro do meu terreno. Provarei a questão em juízo!".

"Não será preciso", retrucou o novo proprietário. "Já sabia da sua reclamação. O senhor pode colocar a cerca onde achar que deve ficar. Estou de pleno acordo". O vizinho ficou a ocasião completamente desarmado e murmurando palavras incoerentes, retirou-se. A cerca permaneceu no mesmo lugar.

Os rotarianos têm comprovado a força dessa atitude na solução de muitas tensões. Talvez o caso mais extraordinário seja o litígio de limites entre o Equador e o Peru, que ficou sem solução durante 150 anos, causando três guerras. Na ocasião crucial, os rotarianos de ambos os países persuadiram os seus governos a permitirem uma conciliação. Três rotarianos, designados pelo Presidente do Rotary International, encontraram-se num país neutro e em 4 dias e meio conseguiram formular uma solução que, posteriormente, foi adotada pela conferência da Organização Inter-americana.

A guerra do Chaco terminou, em grande parte, pelos esforços dos rotarianos dos países beligerantes e do Chile. As tensões nas fronteiras entre o Brasil e o Uruguai foram acalmadas pela influência dos rotarianos dos dois países. Mais recentemente, os rotarianos de Costa Rica e Nicarágua ajudaram a evitar um conflito entre os seus países pela campanha amisstosa de visitas e troca de correspondência com não rotarianos.

A angústia produzida pela divisão da Índia e Paquistão será lembrada por muito tempo. Hordas de refugiados vagueavam pelos campos. Havia ameaça de anarquia. O restabelecimento da ordem foi atribuído em parte, à ação individual de muitas pessoas e de rotarianos. Sendo os Rotary Clubes uma das poucas organizações em que os hindus e muçulmanos se reunem socialmente, organizaram eles comissões de conciliação que "colocaram patrulhas nas ruas, compostas de hindus e muçulmanos de influência. Proferiram discursos em comícios e fizeram um apelo ao povo para acalmar os ânimos exaltados, procurando resolver as suas dificuldades".

A maioria dos rotarianos, porém, não tem oportunidades de seguir o caminho da conciliação em circunstâncias tão dramáticas. Podem, entretanto, procurar interesses comuns para o acordo, através das amizades pessoais e troca de idéias com outros rotarianos tanto nos seus próprios clubes, como com os dos clubes distantes. Dessa forma, qualquer rotariano poderá aproveitar as facilidades do Rotary para, como homens de boa vontade, estudarem as verdadeiras necessidades e aspirações dos seus compatriotas. Uma vez descobertos os interesses que são vitais, poder-se-á estabelecer os meios de atendê-los, sem prejuízo aos interesses vitais de outras nações. Entrementes, os conhecimentos adquiridos e a busca construtiva para a elaboração do acordo poderão ser compartilhados com as pessoas da comunidade.

É evidente, pois, que os que forem seguir o caminho da conciliação devem possuir imaginação e engenho. É preciso agir-se como uma espécie de ministro do exterior encarregado das responsabilidades internacionais do seu país, porém sem ter-se as pressões do cargo. A idéia é considerar os méritos de cada problema internacional em todos os aspectos. Poderão os senhores encontrar uma solução que pudesse ser recomendada aos seus compatriotas?

Na realidade, essa projeção de nós mesmos em um tal papel não é difícil. Todo o mundo assim o faz, inconscientemente, quando lê os jornais ou vê as notícias do momento, no cinema. É muito mais difícil, no entanto, imaginar-se todos os fatores que afetam um determinado problema ou situação. Qualquer indivíduo que fizer um estudo, por superficial que seja, no setor das relações internacionais, ficará surpreendido com a sua complexidade. Por conseguinte, pode-se bem compreender as atribulações e a hesitação de um ministro do exterior, no estabelecimento de normas, em face à consideração sobre a defesa, economia do país, sentimento público e alternativas propostas. Além disso, qualquer ação positiva na certa ofenderá alguma pessoa ou grupo.

A complexidade dos problemas internacionais, porém, apresenta um lado feliz. As propostas opostas tendem a se "inter-germinarem", criando novas idéais. O fato de que todas as nações se encontram entre alternativas significa que qualquer país é capaz de usar de persuasão se as diversas alternativas forem examinadas e as suas afinidades estabelecidas. Em outras palavras, as relações internacionais não estão tratando com entidades monolíticas. As nações são formadas por indivíduos!

O alcance do Rotary proporciona oportunidades a todos os rotarianos de contribuírem com esse "exame e estabelecimento de afinidades". Em Rotary há franqueza que talvez possa não existir em comunicações da esfera oficial. A esse respeito, o rotariano que examinar um problema com um rotariano de outro país, terá possibilidade de conseguir uma impressão mais exata do que esse país realmente deseja. Ao mesmo tempo, não sofrerá desilusões, quando as declarações verbais não forem traduzidas em ações adequadas. Em lugar de se irritar, terá compreensão.

Outra vantagem derivada da complexidade dos assuntos internacionais é que sempre existe a possibilidade de aplicar-se soluções técnicas. Como vivemos em uma época de tecnologia, podemos culpar a ciência por muitas das nossas dificuldades. Entretanto, a ciência não se detém no seu afã insaciável de decifrar os enigmas que nos rodeiam. Nenhum grupo foi mais resoluto par encontrar uma solução ao problema de controle internacional da energia atômica do que os cientistas que produziram a bomba.

Consideramos, por exemplo, o caso dos direitos sobre a água na zona de Punjab. Os limites entre a Índia e o Paquistão atravessam o sistema hidrográfico do rio Indo, deixando a maioria dos canais no Paquistão, as cabeceiras dos rios e o controle do sistema de canais na Índia. A disputa sobre o uso das águas foi um dos problemas mais sérios entre as duas nações. Foi aí que os engenheiros apresentaram um plano para o aproveitamento das águas desperdiçadas que poderia trazer benefícios a ambos os países. Comentou um dos engenheiros: "O essencial é a maneira de pensar. O passo importante é conseguir que se pense que um canal é simplesmente um canal, ou seja um problema de engenharia, não uma causa de controvérsias políticas".

Procurará encontrar e desenvolver bases comuns para chegar a um acordo com os povos de outras nações – quer dizer a boa vontade que se tem em identificar-se com o modo de pensar e de sentir de outros povos, que muitas vezes parecem incompreensíveis, e estar-se decidido a explorar todas as espécies de soluções complicadas de ordem técnica. Desenvolver é a palavra essencial deste contexto. O desenvolvimento significa esforço e tempo. Muitas disputas internacionais têm sido objeto de discussão durantes anos, sem conseguir muitos resultados e a opinião pública, especialmente nesses países diretamente afetados, tende a impacientar-se. O que acontece é que os povos supõem que existem soluções perfeitas e imediatas. A que se deve essa crença?

Parte da explicação a essa pergunta é encontrada nos meios de comunicação em massa, de que depende o público para a maioria das informações e, parte, deve-se aos métodos usados nas negociações em si.

Falando-se de um modo geral, a conferência é o método de negociaçào aceito, que reúne os representantes de países interessados. Aí se inicia o desenvolvimento da cena; por detrás de cada delegado há um pequeno grupo de peritos que representa as autoridades que não se encontram presentes, mas que estão ativamente interessadas nas negociações; nas galerias, vêem-se várias filas de expectadores provenientes de todos os níveis sociais, que assistem à conferência talvez por motivos de interesse sincero ou frívolos. Comparecem, ainda os representantes da imprensa; resplandecem as luzes da televisão e os microfones das emissoras de rádio estão a postos para transmitirem todas as palavras aos recantos mais longínquos do globo. Eis que se desenrola o sonho dos estadistas - "diplomacia de portas abertas"!

Esse sonho nasceu do ressentimento contra o cinismo que caracterizava as negociações secretas. Acreditava-se que a honestidade poderia ser preservada, submetendo-se as transações das nações à vista do público. Além do mais, o público tinha o direito de ficar sabendo.

Porém, esse método encerrava tentações imprevistas. O diplomata, em seu papepl de delegado, revelava-se, muitas vezes, um fervoroso propagandista, usando de forte linguegem e desviando-se da verdade. Se ele demonstrasse a menor tendência para chegar a um entendimento com um oponente, era motejado de "covarde" ou "pessoa que se deixa influenciar", pela imprensa ou poíticos da oposição. Nessas circunstâncias, somente um estadista do calibre de Churchill poderia atrever-se a exigir que se voltasse à prática da diplomacia secreta. Sir Winston, declarou, na ocasião:

Essa confer6encia não deveria ser obstruída por um programa rígido e pesado ou levada por labirintos de detalhes técnicos, considerados por hordas de peritos e autoridades, numa série de exposições monótonas e fastidiosas. Deve-se limitar a conferência a um menor número possível de pessoas e potências, que se reuniriam com um certo grau de informalidade, porém com um grau maior de reserva e isolamento.

Conquanto possa não chegar a um acordo peremptório poderá prevalecer um sentimeto geral entre os presentes que fará algo mais do que arrasar a raça humana, incluindo os próprios participantes.

Poderá esse tipo de negociações eliminar os impasses que obstruem agora o caminho da conciliação? Os proponentes argumentam que o público ficaria livre da confusão e da incerteza causadas pela diplomacia de porta aberta, com as irremediáveis publicações de artigos pela imprensa sobre novas crises.

Por outro lado, o público tem o direito de ser informado, o direito de estar presente quando o seu destino está sendo discutido. Os proponentes da diplomacia aberta opinam com igual vigor que a pressão e vigilância dos constituintes auxiliam a elevar o nível dos estadistas e que é o melhor meio para se conseguir uma diplomacia de pessoa-a-pessoa.

O indivíduo quer ousar – e deve ficar bem esclarecido de que ele é uma pessoa ousada – seguir o caminho da conciliação deve possuir também paciência. A paciência tempera o ardor das convicções com a brisa e a virtude do bom senso. Mantém viva a imaginação no trabalho de procurar compreender os pontos de vista de outros e na análise das dificuldades dos problemas técnicos. Acima de tudo, é preciso paciência para poder-se tratar das objeções do público nas fases delicadas das negociações, para que não seja insinuado que houve traição, aceitando-se algo que não é a primeira solução.

A própria natureza da procura de interesses afins exclui as possibilidades de soluções perfeitas. Nenhuma capitulação incondicional, nenhuma vitória para este ou aquele lado poderá ser esperada. Pouco adiantará colocar o assunto à votação se o efeito for o de isolar a minoria e cimentar sua resistência. O trabalho de conciliação consiste em encontrar soluções alternativas baseadas em pontos do acordo que tenham ficado patentes pelos sinceros esforços feitos em entender-se os pontos de vista de outros.

Muitos crêem que esse trabalho aproxima-se do de um mecânico – um trabalho de precisão como o da fabricação de um automóvel. Mais adequado, talvez, seja o o talento de um jardineiro que sabe que a única coisa que pode fazer é cultivar o solo e controlar a temperatura nas estufas. O jardineiro tem que aquiescer aos ditames da natureza, podando os arbustos e fertilizando o solo. Um grupo de mecânicos pouco conseguiria se, mesmo armado de instruções, fosse cultivar um lugar agreste. Porém, um jardineiro paciente, consciente das suas limitações, pode produzir valiosos resultados.

"Um dos exemplos mais fascinantes das possibilidades de colaboração internacional", escreveu um rotariano, "é ver-se um desses jardins onde há plantas, arbustos e árvores do mundo inteiro, florescendo lado a lado, em perfeita harmonia e beleza sem par, produzindo algo que, no pensar de muitos, é quando o homem se sente mais perto do seu Criador".

"Um jardim oferece muita sabedoria e o início dessa sabedoria é a aceitação de que todos os resultados finais dependem do bom preparo do solo. O mesmo ocorre em Rotary. A colheita que vislumbramos é a paz mundial e a estabilidade. As sementes que devemos plantar são o companheirismo e a amizade, a compreensão, a boa vontade, e a boa fé. O solo – as mentes e o desenvolvimento do pensamento de cada rotariano, e em ordem de importância em primeiro lugar, é o preparo de um solo fértil..."


 

 

 

3. O Caminho da Liberdade

 

Defenderá o império da lei e da ordem para preservar o direito do indivíduo de sorte que ele possa desfrutar da liberdade de pensamento, palavra e reunião, liberdade de aspirações materiais, ausência de perseguição, agressão e medo.*

 

A liberdade é um elemento básico da sociedade civilizada e figura, hoje, entre os princípios enunciados pela maioria dos governos. Muito se tem falado e escrirto sobre a liberdade – mais do que a maioria dos assuntos e, no entanto, poucos princípios têm sido mais escarnecidos pelo homem que, consciente ou inconscientemente, tem-na usado e continuam a usá-la como uma arma ideológica para a promoção de causas mesquinhas.

Não trataremos aqui do conceito de liberdade em suas manifestações políticas, econômicas e religiosas, pois seria matéria de muitos volumes e de muitas discussões filosóficas, porém os rotarianos estão profundamente interessados pela causa da liberdade. Eles se têm, assim, expressado em suas declarações e realizações.

A importância que os rotarianos atribuem à liberdade é amplamente demonstrada pela atenção especial demonstrada no Esboço das Normas em serviços internacionais. Antes da declaração explícita, no início deste capítulo, vê-se o conceito que os rotarianos têm pela "liberdade".

O ideal de servir do Rotary encontra expressão somente onde existe liberdade do indivíduo, liberdade de pensamento, palavra e reunião, liberdade religiosa, liberdade de aspirações materiais, ausência de perseguição, agressão e medo.

Liberdade, justiça, verdade, observância da palavra empenhada e respeito pelos direitos humanos são inerentes aos princípios do Rotary e são, também, vitais à manutenção da paz e da ordem internacionais.

E por que essa categórica ênfase? Somente poderá ser explicada pela importância que os compiladores do Esboço das Normas – fortalecidos pelas opiniões de rotarianos de muitas partes do mundo – conferem ao princípio que evoca. A liberdade do indivíduo, a sua dignidade e a liberdade de pensamento, têm significação especial para os rotarianos. Quando a liberdade é destruída, a ordem e o progresso desaparecem.

Com o crescimento de governos totalitários na Europa e na Ásia, no período transcorrido entre as guerras mundiais, os Rotary Clubes começaram a ser perseguidos. Em certo país, devido ao sistema de regimentação total, os Rotary Clubes foram fechados. Em outro, os rotarianos foram "presos" devido às suas "idéias perigosas" e sob o pretexto de pertencerem a uma organização "internacional" suspeita. Em outro, ainda, o Rotary foi suprimido porque "a nova ideologia política condenava o pensamento individual por considerá-lo como a falha estrutural de toda uma época, subsstituindo-o pelo pensamento que interpretava a consciência coletiva.

Em uma convenção anual – a única ocasião em que a organização delibera em caráter geral – contestou-se de modo decisivo e claro a acusação contra a integridade do Rotary. Na Convenção de Havana (Cuba) em 1940, declarou-se uma resolução que quando não existir liberdade, justiça, verdade, cumprimento d palavra empenhada e respeito pelos direitos humanos, o Rotary não poderá subsistir e nem é possível que os seus ideais prevaleçam.

Conquanto o Rotary não tenha segredos, nem rituais, como tão pouco uma rígida uniformidade, os ditadores consideravam-no uma ameaça,pois reconheciam que era um símbolo de liberdade. Retroceder em lugar de avançar era a ordem do dia nos países em que os governos assumiram poderes ditatoriais, reconhecendo que o Rotary era uma organização que não podia ser controlada para fins de propaganda e de perseguição. Antes do início da segunda guerra mundial, o Rotary era o alvo das diretrizes oficiais em vários países.

Apesar dos obstáculos causados pelos bombardeios aéreos, explosões e "blecautes", muitos Rotary Clubes continuaram a se reunir. Ao caminharem pelas ruínas fumegantes os rotarianos se sentiam ainda mais estimulados em prestar ajuda e em ter consideração para com o próximo. Durante a ocasião da guerra relâmpago o Rotary Club de Londres formou vários novos clubes, cedendo partes dos seus limites territoriais. No mundo inteiro, grandes projetos foram iniciados para prestar-se auxílio às vítimas de guerra, aos prisioneiros e estender hospitalidade aos soldados que se encontravam longe de seus lares. Talvez o quadro mais dramático do Rotary, no mundo em guerra, seja a história contada por uma testemunha de uma reunião rotária realizada durante a invasão de uma ilha:

"Na penumbra de um fétido túnel, encontravam-se sete rotarianos, rodeados de feridos que gemiam de dor. O único civil era o presidente do clube que havia fugido ... em um pequeno bote. Na falta de um martelo ou gongo para iniciar a reunião, utilizou ele o cabo de um revólver do soldado sentado ao seu lado, dando início aos trabalhos com esses únicos sócios do clube".

É evidente, pois, que apesar da luta, subsistia o interesse por algo que significava liberdade. Alguns Rotary clubes continuaram realizando as suas reuniões, furtivamente, sob outros nomes. Um clube, por exemplo, transformou-se em um grupo coral, cujo nome era o de um pássaro que não cantava uma nota. Outro reunia-se, regularmente, em um restaurante frequentado por oficiais inimigos. Os arquivos de muitos clubes foram confiscados e o presidente de um deles foi preso por ser rotariano.

Após a guerra, houve um rápido restabelecimento de Rotary em países em que havia sido abolido. O dinamismo com que os clubes procuravam restaurar-se é atribuído, em parte, à resolução adotada pelos rotarianos na Convenção realizada em Havana, em 1940. Era evidente que, uma vez que a normalidade fosse restaurada, não havia motivo para adiar o restabelecimento do companheirismo e da prestação de serviços voluntários. A falta de Rotary Clubes, lamentada por muitos em certos países, não representa decisão do Rotary International. São as condições existentes nesses países que impedem o seu estabelecimento.

É claro, pois, que os rotarianos têm uma razão especial em sentirem-se atraídos pelo caminho da liberdade; especificamente a preservação do Rotary, além de outros motivos que consideram de grande valor, ou talvez tudo mais. Nunca na história da humanidade a questão foi tão clara. O homem deve escolher entre a tenebrosa era do despotismo e a era dourada da liberdade, podendo mesmo, às vezes, descobrir que os inimigos da liberdade se encontram na sua "própria casa". A luta não se desenvolve somente ao longo das fronteiras nacionais. Existe uma quinta coluna no solo pátrio – talvez mesmo em nossas próprias mentes. Há uma tentação de se defender a liberdade, negando-a aos que querem traí-la.

Conta-se que em certa ocasião, um senhor que visitava o Primeiro Ministro Gasperi, no seu apartamento em Roma, ficou muito chocado com a música que estava sendo tocada no apartamento vizinho. Era nada menos que a "Giovinezza", hino fascista que seja a marcha do partido que havia prendido o Ministro, deixando sua família passar fome. Disse o Ministro, com tristeza: "É a Condessa. Ela está procurando aliviar a minha solidão e aborrecimento tocando os seus discos. Até há pouco tempo ela somente tocava às sete horas da manhã, pois sabia que me levantava a essa hora para ir ao escritório e às nove quando voltava para jantar. Porém, desde a minha enfermidade ela toca discos o dia inteiro - "Giovinezza"... "Às armas"... "Hino a Roma"... e "O Império".

O senhor deve reclamar!

Já reclamei. Na qualidade de cidadão escrevi mesmo uma carta ao Primeiro Ministro, que foi assinada por mim e por todos os da minha família. O Primeiro Ministro respondeu que, como chefe de um governo livre, ele tem que respeitar as liberdades individuais, inclusive o direito das pessoas de tocarem suas músicas favoritas e que, portanto não poderia interferir nos assuntos privados dos cidadãos.

 

Até que limite se deve ou se pode respeitar o exercício de liberdades individuais numa sociedade livre? Diz-se que a liberdade pessoal termina quando começa a liberdade de outros. Onde se encontra a linha divisória? Em que ponto a liberdade individual deverá ceder lugar em favor da vontade do grupo?

O que realmente significa a liberdade nas diversas regiões do mundo?

Ao terminar a segunda guerra mundial, um jornalista americano compareceu a um almoço, na Europa, em que vários russos estavam presentes. Sentou-se entre dois russos: um fotógrafo militar e um intérprete. O fotógrafo estava rememorando as façanhas do exércit russo, quando o americano pediu ao intérprete que lhe perguntasse - "O que ele achava ter sido o motivo da guerra".

Após o intérprete ter feito a pergunta, o fotógrafo respondeu com violência: "Svoboda!" - "Liberdade", como se dissesse ao americano - "O senhor não sabia! Que ignorância!"

"Pergunte-lhe o que é a Liberdade", disse o americano.

"Liberdade?", respondeu o russo, hesitando a princípio, depois com convicção - "Liberdade é saber como auxiliar o próximo...".

Em muitos lugares do mundo os homens estão lutando pela liberdade. Os frutos da liberdade foram confiscados por homens cujas ações contradizem as suas idéias. Admitindo-se que aprte do problema seja uma questão de semântica, o fato é que a liberdade significa centenas de coisas diferentes a centenas de grupos diversos.

Constatou-se o problema da definição do conceito da liberdade, quando os representantes de 58 nações reuniram-se para analisar o seu significado. Verificaram a história e tradições, valendo-se de famosos documentos redatados no decorrer da luta pela liberdade no mundo. Discutiram cada frase, analisando o seu significado e, conquanto a sua Declaração dos Direitos Humanos tenha sido aprovada, depois de mais de dois anos de estudos, por 48 nações, sem oposição nenhuma (10 nações se abstiveram de votar) a disputa ainda está longe de haver terminado.

Para os rotarianos que estão prontos a "defender a lei e a ordem, a fim de preservarem a liberdade do indivíduo", a Declaração Universal dos Direitos Humanos apresenta uma interessante oportunidade. O Rotary International foi uma das primeiras organizações a proporcionar exemplares aos seus clubes associados, para serem usados em debates. Os Rotary Clubes, em muitos países, realizaram debates em suas comunidades. Os estudos levados a efeito pelas comissões de serviços internacionais foram publicados em folhetos. Inúmeras estações de rádio irradiaram debates realizados por grupos de rotarianos sobre o tema dos direitos humanos. As escolas foram convidadas a organizarem concursos de ensaio com prêmios oferecidos pelos Rotary Clubes e o aniversário da adoção da Declaração (dia 10 de dezembro) tem sido comemorado de vários modos.

Conquanto os defensores da liberdade se tenham valido da Declaração como um instrumento educacional para esclarecer e confirmar o conceito da liberdade, as tentativas subsequentes para estabelecer-se a lei através de pacto internacional sobre os direitos humanos e a adoção de medidas necessárias para garantir a sua obediência, têm causado apreensão a alguns. Uma das objeções principais é que algumas nações progrediram mais do que outras no estabelecimento de diferentes aspectos da liberdade, mediante legislação apropriada e consentimento popular e, que sob essas circunstâncias, o acordo de uma fórmula legal aceitável a todos os países tenderia a produzir um denominador comum que seria de nível ínfimo. Se se formulasse algo aceitável a todos, provavelmente não seria satisfatório a nenhum. Alega-se que essa forma de liberdade, reduzida à sua mínima expressão, tenderia mesmo a enfraquecer a proteção existente dos direitos humanos de alguns países.

Os Rotary Clubes que demonstraram a sua vigilância, indicando esse perigo, também sugerem que a opinião pública na comunidade constitui fator decisivo na preservação da liberdade. Os acordos internacionais sobre as definições da liberdade e normas para a sua aplicação terão pouco ou nenhum efeito, a não ser que haja capacidade e determinação para se compreender o significado da liberdade no nível da comunidade.

Os Rotary Clubes proporcionam um foro em que a liberdade e os direitos humanos podem ser discutidos a fundo. Como resultado desses debates, os rotarianos podem tirar as suas próprias conclusões baseadas nos princípios rotários, em concordância com as suas próprias comunidades e segundo o seu discernimento pessoal – e de seus amigos. Eles defenderão, ou não, os princípios da liberdade onde se encontram. Nenhum sistema internacional poderia proteger os direitos de quase três bilhões de pessoas. Portanto, a responsabilidade primordial repousa com a comunudade local, e é aí, na sua própria cidade, que a influência do rotariano na defesa dos direitos humanos poderá ser exercida com maior proveito.

Uma linha de defesa da liberdade – a liberdade de discussão – é a reunião semanal do Rotary Clube. Esse ambiente cordial rotário é o lugar adequado para o intercâmbio de opiniões. Conquanto a índole de muitos problemas suscetíveis de controvérsia – especialmente os problemas internacionais – apresente certas dificuldades e perigos, um dos alvos do Rotary é substituir as paixões políticas pelo desejo de compreensão. Não se pode evitar os assuntos de controvérsia. A maneira de tratá-los depende do espírito de cada clube.

"Agrada-me as risadas francas que se ouve nos clubes", disse o presidente de um Rotary Clube na Inglaterra. "Agrada-me o murmúrio controlado de dissentimento. Isso descreve o ambiente de Rotary – companheirismo amistoso e familiar que resiste às diferenças fortes de opinião.

Um Presidente do Rotary International declarou:

A divergência de opiniões é a verdadeira essência do Rotary. Nas instituições religiosas e comerciais, analisamos as idéias com pessoas que estão de perfeito acordo conosco. A genialidade do Rotary é reunir indivíduos diferentes: o comerciante, o advogado, o médico. Através das diferenças, não das semelhanças, o Rotary procura a compreensão. Como podemos expressar as nossas divergências de opiniões no Rotary, sem sermos desagradáveis, conseguimos colucionar muitas diferenças. Porém, o fundamento não é que devemos estar de pleno acordo, mas simplesmente que precisamos indagar e informar-nos, a fim de que os nossos serviços à sociedade, depois das nossas reuniões, possam ser serviços prestados com inteligência e baseados em informações corretas.

 

Os rotrianos não se valem apenas das suas reuniões semanais para estimular o pensamento e demonstrar o uso da liberdade. Adotaram ou adaptaram também outros tipos de reuniões com o mesmo propósito. A "reunião domiciliar", ou "reunião no terraço", em climas quentes, tornou-se uma parte básica das técnicas de Rotary. Muitos assuntos têm sido tratados pelos rotarianos e suas famílias nessas reuniões informais domiciliares. O mesmo acontece com as reuniões interclubes, foros gerais interclubes e em outras reuniões semelhantes, organizadas com o propósito de atender às necessidades e preferências locais.

Nessas assembléias os rotarianos têm aprendido o valor da participação pessoal e estão, em número cada vez maior, substituindo os "oradores especializados" de fora. Esses oradores são valiosos, porém os rotarianos aprenderam que nesta era de comunicações amplas e rápidas, com a abundância de livros e revistas e, graças às facilidades de se porem em contato com os rotarianos de outros países, mais e mais rotarianos podem e devem tornar-se "oradores especializados".

O editor do boletim semanal de um clube fez essa descoberta e escreveu:

Não deveríamos ter nenhum problema de frequência se todos os nossos programas fossem como o da semana passada. Foi uma revelação para muitos de nós descobrirmos quanta habilidade e talento existem entre os nossos próprios sócios. E o melhor de tudo é que todos têm a liberdade de expressar o seu desacordo. O debate da semana passada continuou por muito tempo depois da reunião. E ainda continua.

Se os rotarianos se convencerem de que o que pensam é suficientemente importante para ser exposto em público então é possível que dêem maior valor ao que os outros pensam e dizem, pedindo-lhes mesmo que se expressem – o que representa uma fase da liberdade tão importante como qualquer outra.

Por exemplo, Adolph A . Berle Jr. Opina que tudo que as constituições, estatutos e tribunais podem fazer é preservar os "direitos" como permissões. A maior ameaça, afirma ele, é a conglomeração de forças na sociedade que influenciam os homens a não utilizarem essas permissões:

Elas são as forças letais que, de várias formas, induzem o indivíduo a não expressar os seus pensamentos, a não discordar, a não apresentar assuntos que desagradem, a não desgastar o grupo a que se associa. Essas forças se resumem em uma espécie de miasma paralisante de opinões que parece indicar que as vidas e os pensamentos dos homens devem passar pelo mundo sem repercussão, deixando-o sem velocidade.

Nas sociedades mais refinadas, o perigo à liberdade provém da letargia e do conformismo, ou seja, o que Goethe denominou de "trivialidade mortal que nos aprisiona" - enquanto que em muitas partes de regiões que se encontral na etapa inicial de desenvolvimento, o perigo provém da preocupação agressiva pela liberdade – uma obsessão de impô-la aos povos que ainda não estão preparados para utilizá-la com sabedoria e proveito.

Qualquer que seja a situação em uma determinada nação, os rotarianos em mais de 100 países e regiões geográficas, encontram-se em posição excelente para dar o exemplo de difundir os princípios da liberdade ao nível que seja necessário – sempre dentro da estrutura da normas rotárias.

Desde o término da segunda guerra mundial, concedeu-se a independência – liberdade – a mais de 650 milhões de pessoas. E, há muitos milhões mais que se estão reunindo para entrarem nas fileiras dos povos livres. Houve um tempo em que esses milhões recebiam de outros a sua liberdade, porém a causa da liberdade, agora, tornou-se, nas palavras de Tom Paine, "a causa de toda a humanidade".

Aos milhões que não a desfrutam e que almejam consegui-la, a liberdade é uma esperança e um chamado para unirem-se; aos poucos que a temem, é mais terrível do que a morte; aos que a desfrutam e apreciam-na, é a base da dignidade humana e um dos caminhos da paz e da abundância.

Há ainda os que a receiam, coquanto simulem defendê-la. Durante os anos em que os 650 milhões de pessoas receberam certo grau de liberdade ao conseguirem a sua independência, outros tantos milhões, ou mais, estavam enveredando-se atrás das várias cortinas do totalitarismo. E, os milhões de indivíduos de países cujo desenvolvimento apenas se iniciava, que desejavam, em primeiro lugar, ser senhores dos seus destinos, estavam confusos e não sabiam o lugar que lhes correspondia no panorama mundial. Russel Davenport, falecido escritor americano, expôs bem o problema: "O nosso conceito de liberdade parece não se enquadrar quer às necessidades ou aos ideais da maioria dos povos do globo. Falta algo que os povos desejam, algo de que necessitam, algo que devemos expressar em nossas palavras se é que a nossa doutrina de liberdade vá ter um cunho autêntico. Temos, pois, agora que descobrir o que é esse "algo". A não ser que possamos produzi-lo, o comunismo irá capturar e absorver a causa da humanidade."

"Há especialistas na teoria da liberdade", continuou ele, "como há hoje em dia especialista para tudo o mais; porém eles têm a tendência de expressar-se em linguagem demasiadamente especializada e exclusiva do seu círculo, que não está ao alcance do leigo. Aludimo-nos ao mortal comu, não ao especialista... Pensamos nesses milhões de indivíduos que não pretendem possuir conhecimentos especiais, exceto os que se relacionam com as suas próprias atividades, mas que, no entanto, encontram-se forçados pelas circunstâncias da vida democrática a não somente tomar as sua próprias decisões como também proporcionar liderança para os demais..."

Ele poderia estar referindo-se aos rotarianos – rotarianos que se reunem, debatem, escrevem, professam uma religião,a trabalham e lideram. Eles se encontram na vanguarda dos que entendem o que é a liberdade, dos que sabem que a liberdade, nas palavras de Thornton Wilder "é uma séria convocação". Se desejarmos defender a liberdade contra o ataque imprevisto ou contra a traiçoeira intrusão da conformidade, o preço será algo mais do que a proverbial "eterna vigilância". O preço agora é mais elevado.

O preço é estudar, pesquisar, defender, servir – e a compreensão de que a liberdade é mais do que possuir algo: é viver algo e desejar que outros também compartilhem. Liberdade é a ação em prol de algo, não contra; é positiva, vibrante, significativa. É indivisível, pois nesta era em que vivemos se a liberdade for negada a alguém, em qualquer parte do mundo, a liberdade para o resto da humanidade estará em perigo.

Nenhuma nação pode afirmar que garante a completa liberdade e a proteção da dignidade individual. É verdade que algumas nações esforçam-se mais do que outras, porém nenhum país tem o direito de se vangloriar. A liberdade é um conceito em contínua evolução – uma meta distante que se encontra na vanguarda da sociedade – no fim de um caminho repleto de desvios pedregosos. Porém é um caminho que vale a pena seguir, pois conduz a esferas mais elevadas.

Tagore, um dos grandes poetas da Índia, expressou-se bem e para toda a humanidade quando disse:

Onde a mente está livre de temores e se vive de cabeça erguida;

Onde o conhecimento é livre;

Nessa terra de liberdade, Pai meu, faça com que

O meu país desperte.

 


 

 

4. O Caminho do Progresso

 

 

Apoiará a ação orientada no sentido de melhorar os padrões de vida de todos os povos, compreendendo que a pobreza em qualquer lugar ameaça a prosperidade em todos os lugares. *

 

Durante o período em que os primeiros satélites foram lançados, um rotariano – bem como milhões de outras pessoas – leu nos jornais que um dos satélites iria passar por cima da sua comunidade em determinada hora.

"Fui ao quintal da minha casa, uns minutos antes da hora marcada", disse ele, "duvidando que o satélite pudesse ser visto na hora aprazada. Aí, em silêncio, na intimidade das minhas flores e arbustos, pensei ser um lugar estranho para presenciar um fenômeno de tal magnitude... Olhei novamente em direção ao nordeste e eis que surge uma grande estrela, assim parecia, cruzando o firmamento numa velocidade de 29.000 quilômetros por hora, desaparecendo no horizonte..."

"Na noite seguinte", continuoou ele, "fiquei no escritório até mais tarde, porém havia lido nos jornais que o satélite novamente passaria pela nossa cidade. Entetanto, esqueci-me do assunto por completo até que estava a caminho de casa. Consultei o meu relógio e vi que estava quase na hora do satélite passar. Como estivesse próximo a um parque, parei o automóvel e dirigi-me ao centro do parque para ter uma visão melhor... e, novamente, eis que surge o satélite, mais brilhante do que nunca, chispando pelo céu repleto de estrelas. Olhei no meu relógio e constatei que havia passado com uma exatidão de 30 segundos da hora calculada pelos astrônomos! Poderia ter regulado meu relógio por ele, como costumávamos fazer com o trem das 5:30! Nos próximos 60 minutos, os meus amigos de outros recantos da terra também estariam vendo-o, maravilhados como eu ante o portento que assinalou o início de uma nova era. Regressei ao meu carro, completamente alheio à beleza da noite, da lua, das estrelas, do bulício das folhas e da serenata incessante dos insetos. Experimentava uma nova emoção intermeada de admiração e de receio..."

Aí estava, na realidade, o símbolo de uma nova era – a era atômica e espacial e milhões de pessoas também estariam sentindo a mesma emoção. O que nos trará essa era? Será uma era de paz e de abundância... ou uma era de confusão, de desordem e de lutas? Quem poderá dizer?

Sejam quais forem as metas desta era e as técnicas empregadas para alcançá-las, os historiadores concordam em que esta era tem um outro nome que revela a magnitude da tarefa: "Era das Grandes Expectativas". O satélite a percorrer o seu caminho no céu, alheio às diferenças nacionais, raciais, religiosas, econômicas, sociais e culturais e alheio às fronteiras, rotnou-se símbolo de tecnologia e progresso material. Não representa, entretanto, um símbolo preciso do maior e mais nobre gênio da humanidade, pois esses impulsos pertencem a esferas espirituais. Porém, os que sofrem fome, os desafortunados, os ignorantes, os "cmaponeses que formam três quartas partes da humanidade", de que nos fala Toynbee, tiveram a visão da tecnologia e progresso material.

A alimentação, sem dúvida, é a sua preocupação principal. Depois, a necessidade d'água, de um teto e de uma cama. O que um quarto da humanidade toma como natural, são coisas que três quartas partes do mundo nunca tiveram. Dez anos depois da segunda guerra mundial, apesar dos planos grandiosos e projetos custosos de reconstrução, o número de pessoas famintas havia mesmo aumentado! Metade da população mundial ganha, anualmente, menos de $ 100 dólares.

Entre dois terços dos habitantes da terra, a média de sobrevivência é de um pouco mais de 30 anos. Cerca de metade da humanidade não sabe ler nem escrever. Em muitos lugares, o nível de vida durante os últimos mil anos pouco tem melhorado e em vários outros tem mesmo piorado.

Poderá a terra produzir alimento suficiente para nutrir uma população que se está aproximando dos três bilhões? Discordam as auatoridades sobre essa questão. Certamente existirão pornlemas de distribuição, mesmo que os problemas de produção possam ser resolvidos. O geógrafo inglês, L. Dudley Stamp, afirma que "se os melhores métodos agrícolas atuais fossem aplicados em partes da terra hoje cultivadas, uma população de pelo menos três bilhões poderia ser alimentada adequadamente. Se as terras não cultivadas ou de baixa produção pudessem produzir,na mesma base, a população mundial poderia atingir mais de 10 bilhões. Se considerarmos que a ciência está constantemente contribuindo para aumentar o conhecimento humano, podemos esperar um progresso que simplificará o problema de alimentação da raça humana, desde que o homem derrube as barreiras que ele próprio ergueu entre as nações". Naturalmente, esse é o ponto de vista de um cientista apenas, e há muitos outros que estão em completo desacordo. Alguns acreditam que o mundo está perdendo a partida entre a preservação e o desastre.

Qual será o papel do rotriano nesse panorama? Poderá ele fazer alguma contribuição? De acordo com o Esboco das Normas, a Liberdade é também vital à manutenção da paz e ordem internacionais e ao progresso da humanidade e aí, o rotariano é exortado a apoiar a ação orientada no sentido de melhorar os padrões de vida de todos os povos com a sua contribuição particular ao caminho do progresso.

Não é fácil manter-se a fé no progresso depois dos horrores de duas guerras mundiais, com a consciência de todas as barreiras que foram levantadas entre as naçõese das condições em que a maioria da humanidade é forçada a viver. Talvez a fé no progresso seja uma ilusão.

Se for, deve-se, então, esclarecer que o número dos que a alentam é maior do que nunca. A fé no incessante progresso material, que no passado somente existia nas nações, tornou-se agora a aspiração fundamental dos povos em áreas mais atrasadas do mundo. Devido ao impacto da guerra e das lutas políticas, sentem-se eles animados pela convicção de que também poderão desfrutar os benefícios da ciência e da tecnologia. E, mesmo para o observador menos perspicaz está patente que esses benefícios serão conseguidos. De que forma virão, quem os trará, onde e de que modo, eis aí onde se enquadra o rotariano.

Em qualquer processo desse gênero, deve ficar entendido que o progresso não é o resultado de meros desejos. Os povos menos desenvolvidos não alimentam ilusões dessa naturaza. O melhoramento dos seus níveis de vida exige deles tremendos esforços e muito sacrifício para acumularem capital, para educarem a sua gente e muitas vezes mudanças drásticas da estrutura social. Entretanto, por maiores que sejam os seus esforços, não serão suficientes por si. É preciso o auxílio dos povos adiantados, que possuem a técnica e os necessários conhecimentos, os recursos disponíveis para fazer investimentos e, sobretudo, o desejo de ajudar. O Esboço das Normas presume que os rotarianos desejam prestar auxílio.

Poder-se-ia escrever muitos volumes para atestar-se essa suposição. O ideal de servir professado pelos rotarianos não é uma atitude sem expressão. Em inúmeras ocasiões eles prestaram e prestam auxílios a outros, não somente em suas próprias comunidades e países, mas também quando o apelo vem do exterior.

"Quem dá primeiro dá duas vezes", poderia ter sido o lema de um pequeno Rotary Clube que enviou, com presteza, ferramentas de carpintaria e alvenaria às vítimas de um terremoto no Equador. O governador do distrito rotário que recebeu o auxílio, dirigiu a seguinte mensagem de apreço:

A sua interessante carta foi traduzida para o espanhol e será enviada a todos os clubes do meu distrito, a fim de que saibam como esses valorosos gregos modernos de Rotary podem fazer milagres, mesmo sendo em pequenos números. Ao mesmo tempo, receiamos que a sua generosidade tenha sido uma grande imposição, um grande sacrifício com a remessa de martelos, serras, trolhas, pregos... muitas vezes retirados da caixa de ferramentas de casa... Que abuso! ... E, ainda, a enfadonha tarefa de empacotá-los e despachá-los em benefício dos descendentes do Império Inca... Be sabemos da magnitude dos seus esforços e da sua profunda significação. O nome do seu clube será sempre lembrado pelos rotarianos do nosso distrito como um facho de luz para nos indicar o verdadeiro caminho das relações internacionais.

Estamos planejando construir algo permanente, uma escola para crianças ou um novo pavilhão para o hospital, que será mantido pelos clubes do nosso distrito como um símbolo permanente da munificência do Rotary International.

 

Os Rotary Clubes têm em inúmeras ocasiões prestado grande auxílio e sido alvos de calorosas expressões de reconhecimento, como o exemplo acima. Têm sido os responsáveis por campanhas para angariar fundos, roupas e alimentos. Ano após ano, vêm fazendo, com regularidade, a remessa de alimentos a diversas partes do mundo, mesmo a custa de sacrifício pessoal. Os seres esquecidos – as vítimas da agressão na Coréia, os refugiados do Vietnam, os foragidos de Berlim e da fronteira húngara, têm se beneficiado , graças ao auxílio do Rotary. Toda vez que os rotarianos sabem de alguma necessidade que poderá ser atendida de forma prática, eles a tem atendido em seguida e com boa vontade.

Sim, o Rotary atende às emergências e quando as circunstâncias exigem um esforço prolongado, os rotarianos também estão a postos, como foi demonstrado pelos Rotary Clubes britânicos com uma campanha de dois anos, que rendeu 100.000 libras esterlinas ( US$ 280.000), que foram enviados para auxiliar as vilas devastadas durante a guerra civil na Grécia. Milhares de famílias foram reabilitadas e 100.000 crianças receberam roupas e cuidados médicos. Vilas completas foram reconstruídas.

O desejo de prestar auxílio é sempre manifestado, porém é essa espécie de colaboração que se requer para elevar o nível de vida de todos os povos? Estabelecendo-se uma analogia, em nível local, imaginem o caso de uma família de sua cidade, cujo chefe da casa, o provedor do seu sustento, tenha falecido. O desejo de auxiliar essa família é comparável à colaboração que foi descrita no setor internacional. Bem diferente, entretanto, é o caso, igualmente comum, do jovem que deseja estabelecer um negócio por conta própria ou que precisa de certa aprendizagem, a fim de conseguir melhor colocação. Os rotarianos podem também prestar auxílio nesse caso, e essa precisamente é a espécie de assistência que muitos países de recente desenvolvimento estão precisando. Estão os Rotary Clubes e rotarianos em situação de prestar colaboração a essa espécie de assistência?

Claro que estão, e de várias maneiras.

Percebe-se os ecos do Esboço das Normas na Lei para o Desenvolvimento Internacional (Lei 535 dos Estados Unidos):

os povos dos Estados Unidos e de outras Nações têm um interesse comum na liberdade e nos programas sociais e econômicos de todos os povos. Esse progresso tenderá a garantir o desenvolvimento das formas democráticas de vida, a expansão do comércio em benefício geral, o desenvolvimento da compreensão e boa vontade internacionais e a manutenção da paz mundial.

Um ex-presidente do Rotary International foi um dos membros do Conselho Consultivo que formulou o projeto lei e 43 rotarianos trabalharam como legisladores na sua aprovação. Entre os muitos benefícios derivados, figuram as missões de assistência técnica a 60 países que pediram auxílio para explorar os seus recursos naturais. Esse programa, no momento, emprega cerca de 2.000 técnicos em produção, distribuição, processos de fabricação e administração. Cinco mil técnicos já vieram aos Estados Unidos para o devido treinamento.

Porém, não somente os Estados Unidos contribuem com esse programa. Há o Plano de Colombo, que é um convênio de assistência recíproca para o desenvolvimento da Ásia. A França colabora da mesma forma em programas desse gênero e há mesmo países relativamente pequenos que enviam os seus próprios técnicos ao exterior. Cerca de 80 países prestam assistência técnica às Nações Unidas, através de agências especializadas em saúde pública, educação, agricultura.

As pessoas que colaboram no desenvolvimento desses programas são aliadas dos rotarianos e exemplos no setor de serviços internacionais. O conhecimento mútuo e amizade são a base das suas atividades, pois o técnico que não possue o dom de comunicar-se e de associar-se com as pessoas do país que ele está ajudando a desenvolver, leva uma grande desvantagem. Muitos dos que prestam assistência técnica são rotarianos ou ingressaram como sócios de Rotary Clubes tendo os requisitos necessários naturalmente, nos países em que estão trabalhando. Segundo afirmam, pertencer ao Rotary auxilia-os grandemente no desempenho de seus trabalhos.

Certo rotariano expôs uma interessante idéia. Não seria possível encontrar-se voluntários entre os milhares de homens de negócios e profissionais aposentados para prestarem esse tipo de assistência? Eles, sem dúvida, possuem a experiência técnica necessária, adaptabilidade mental e gozam de boa saúde. Poderão mesmo sentirem-se desgostosos se postos de lado, depois de terem treinado outros para ocuparem os seus lugares e bem poderiam compartilhar os seus conhecimentos e habilidades técnicas com os povos que estão lutando para elevar o seu nível de vida.

"Além de prestarem auxílio a áreas necessitadas", concluiu ele, "Esses homens teriam imensa satisfação pessoal, e sua vida ativa seria aumentada de uns doze anos ou mais e no regresso aos seus países poderiam contar aos seus amigos a respeito das suas experiências e povos de outros países..."

Se as circunstâncias não permitirem ao rotariano aceitar essa missão, há outros meios em que ele poderá prestar a sua colaboração. Ele poderá tomar a si o encargo de se informar, informando outros também sobre a necessidade de melhorar as condições de vida dos povos do mundo. É deplorável a ignorância do público, especialmente nos países conhecidos como "países avançados". Poucos são os que sabem da grande falta de recursos em comparação ao que é preciso ser feito. Outro ex-presidente do Rotary International, presidente de uma comissão legislativa sobre a energia atômica em seu país, fez um apelo a todos os Rotary clubes para que dedicassem quatro programas, anualmente, à discussão do emprego industrial da energia atômica. Ele crê que somente mediante a pronta informação ao público, poder-se-á evitar os múltiplos obstáculos que infestam o curso da era atômica.

A informação é somente a primeira providência. O rotariano ou o Rotary Clube que estiver alerta aos problemas poderá fazer grandes contribuições. O rapaz que recebeu um empréstimo para os seus estudos e que posteriormente, em colaboração com um outro, inventou um processo que promete tornar a energia atômica tão abundante quanto o hidrogênio pesado que há nos mares, é o orgulho do Rotary Clube que o patrocinou. Deve-se encorajar o treinamento em todos os setores científicos para que se possa atender à necessidade urgente de um número maior de técnicos.

Poder-se-á contribuir à marcha para o progresso material da humanidade, prestando-se apoio aos organismos públicos ou particulares dedicados ao melhoramento das condições de vida. Os Rotary Clubes de vários países tomaram a seu cargo chamar a atenção da "Organização de Fundos para as Crianças, das Nações Unidas" (UNICEF), demonstrando como uma pequena quantidade de dinheiro poderá não somente alimentar as pessoas famintas como também combater enfermidades. Por um dólar, essa agência pode proporcionar uma dezena de doses de penicilina para curar as horríveis chagas causadas pela framboesia. Com a mesma importância, cem crianças poderão ser imunizadas contra a tuberculose com a vacina BCG. Espera-se que dentro em breve esse mal possa ser virtualmente sanado e que resultados semelhantes sejam conseguidos no combate contra a malária, grande destruidora de vida humana. O uso de inseticidas em áreas pantanosas poderá tornar saudável grandes glebas de terra que se encontram perdidas na luta pelo pão.

Poder-se-á, ainda, colaborar na marcha para o progresso, através do companheirismo mundial de Rotary. Muitos Rotary Clubes da Ásia estão prestando auxílio a vilas em que há fome e outras necessidades prementes. Outros esforços semelhantes poderão se empreendidos se o Rotary, em outros países, prestar a sua assistência. A participação em tais atividades seria uma grande honra a qualquer Rotary Clube, pois esses rotarianos estariam "dando de si" a essas causas. O seguinte trecho descreve uma cena típica na Índia:

A nossa satisfação é imensa em poder, depois de dois meses de intenso planejamento, iniciair o nosso projeto na vila do Rotary, de acordo com os nossos desejos. A maioria dos sócios trabalhou, vigorosamente, abrindo valetas para jogar fora o refugo de sua vila adotada. Depois de concluída essa tarefa, começamos a ensinar as crianças da vila a banharem-se e a escovarem os dentes. Os seus andrajos sujos foram substituídos por roupas limpas. Enquanto as crianças se banhavam com sabão e água quente, preparávamos o leite em pó que cada uma delas tomava depois do banho. Como essas crianças devem ter se sentido bem depois do seu banho e de um copo de leite quente!

 

Coisas simples... fundamentais... higiene, moradias e, sobretudo, educação. Numerosos exemplos poderiam ser citados – e esses números estão aumentando – em que conseguiu-se fazer com que essas pessoas da vila ingressassem com o pé firme no caminho do progresso material. Não é propriamente uma questão de fazer o trabalho que precisa ser feito, mas sim o de proporcionar o conhecimento às pessoas, a fim de que elas mesmas o façam. Maior auxílio rotário local poderia ser prestado se se soubesse que haveria a colaboração de rotarianos de outros lugares. Não há clube que não possa contribuir para a aprendizagem de um técnico e para a sua ida aos países de desenvolvimento mais avançado.

A fim de proporcionarem os meios necessários para a educação básica em lugares menos avançados, muitos rotarianos do exterior têm presenteado os Rotary Clubes com os cupons para presentes da UNESCO. Esses cupons são usados para a compra do equipamento necessário ao treinamento de pessoas, a fim de que elas se ajudem a si próprias. Uma menina da Holanda ficou muito surpresa quando recebeu uma comunicação do conselheiro da Organização para Alimentação e Agricultura (FAO) que trabalhava ao pé do Himalaya. Essa menina era uma das milhares de crianças que haviam contribuído para a compra de cupons de presente para o estabelecimento de um laboratório no Estado de Uttar Pradesh. A pessoa que escreveu a carta mencionava como ele havia interessado os rotarianos holandeses numa campanha para angariar fundos e explicava como era essencial a aquisição do equipamento para o desenvolvimento daquele lindo país e de seus habitantes. Disse ainda que os sócios do Rotary Clube da localidade haviam ajudado a construir o laboratório e concluía a sua carta com estas palavras:

Como vê, Hanny, o seu Kwartje (um quarto de florim) contribuiu para o desenvolvimento da melhor compreensão de que tanto precisa nosso mundo. Tudo isso me veio à mente, quando vi o papel com o seu nome e endereço. Não se esqueça, Hanny, de que se algumas vez você se encontrar em dificuldades, e espero que isso nunca aconteça, você terá sempre o auxílio de alguém se se lembrar do seguinte: do valor da compreensão, do valor de dar e agir e do valor de receber.

 

Poder-se-ia estender esse conselho dado a uma criança a todos os povos do mundo. Num senso mais vital, os nossos destinos estão entrelaçados.

Sabe-se muito bem, porém, que as pequenas ações não poderão por si solucionar o problema. Se forem multiplicadas e espalhadas em muitos países em que existem Rotary clubes, servirão de estímulo e reanimarão a fé. Mesmo os grandes projetos empreendidos pelos governos poderão fracassar com o seu próprio peso se não contarem com o apoio entusiasta da opinião pública. Para os que colaboram em projetos semelhantes à assistência técnica se torna um empreendimento pessoal. E, o país que recebe o auxílio, terá maior estímulo para o trabalho e sacrifício por saber que o povo de um país distante está ao seu lado na luta para melhorar o seu nível de vida. Essas ações práticas e tangíveis de serviço contribuem ao moral e espírito de progresso e isso é muito importante.

O caminho do progresso está tão repleto de dificuldades e de assuntos suscetíveis a controvérsia que é muito fácil dasanimar-se. O rotariano somente poderá confrontar esses problemas com sinceridade, estudando-os em todos os seus aspectos e apoiando as deliberações ditadas pela sua razão e consciência. Os rotarianos estão, de várias formas, concentrando a sua atenção nesses assuntos, discutindo-os nas suas reuniões semanais. Os sócios, ainda, reunem-se em seus lares para os discutirem mais a fundo. Através de correspondência e intercâmbio de programas com os clubes de outros países, eles obtêm o conhecimento e a percepção da confraternização mundial. Os sócios fazem palestras em outras organizações sobre esses problemas. A juventude estudantil está aprendendo a confrontá-los e estudá-los. Em resumo, os Rotary Clubes poderão exercer as suas funções fazendo o papel de uma agência para esclarecimento e informação do público.

Quais são alguns desses problemas?

Um dos maiores é a questão de investimentos. É preciso grandes recursos para o melhoramento do padrão de vida; grandes capitais para os empreendimentos em países que se estão desenvolvendo. Alguns desses empreendimentos poderão produzir um rápido rendimento, tornando-os atraentes ao capital nacional ou estrangeiro. No entanto, há muitos projetos vitais que não produzem uma receita direta ou apenas pequenos rendimentos depois de muitos anos. Por exemplo, o custo da luz e força, da irrigação, transporte, muitas vezes vão além da capacidade de crédito de alguns governos. No entanto, esses serviços não podem deixar de ser prestados para que haja progresso na produção de alimentos, de matérias primas e artigos de consumo.

Qual seria a fonte desse capital?

Deveria ser conseguido pelos governos através de impostos ou há alguma forma em que o capital particular possa participar, pelo menos no início, num empreendimento sem lucro? Espera-se que os rotarianos, como homens de negócios, saibam proporcionar esclarecimentos sobre essa matéria e conselhos ao público quando respostas específicas forem esperadas.

Outro problema é a proteção dos investimentos. Que garantias poderão oferecer os países no início do seu desenvolvimento de que o capital estrangeiro não estará sujeito a impostos excessivos ou mesmo confisco? Este é um ponto muito crítico para as nações que conseguiram sua independência recentemente. Proclamam elas o seu direito de soberania sobre os seus recursos materiais, porém como poderão esperar atrair grandes capitais estrangeiros necessários para o seu desenvolvimento se não garantem a sua proteção?

Outro ponto é o sistema econômico do país em si. Poder-se-á confiar na sua estabilidade? Funciona em benefício da maioria dos seus cidadãos ou unicamente de alguns? Mencionou-se apenas alguns pontos que confrontam a humanidade à medida que tende a unificar-se devido à tecnologia.

Essa "unificação" é real. Uma quarta parte da humanidade já não sofre mais fome nem sede e pode dedicar as suas energias para conseguir uma vida boa, pelo menos no campo material. Este é o mundo que se caracteriza pelas comunicações rápidas, pela automatização, pelo transporte por aviões a jato e pelo tempo para distrações. Este é o mundo que conduziu a humanidade à Era Espacial.

Deve-se reconhecer, também, que este mundo produziu Amor e Caridade; Liberdade e Compaixão; Visão e Interesse pelos demais. Conquanto o "espaço interior" não esteja ainda completo, o processo continua. Os rotarianos são chamados a se interessarem pelo "nível de vida" de outros povos, porém reconhecem que a pior pobreza é a pobreza espiritual.

Portanto, à medida que três quartos da população mundial percebem as suas novas oportunidades, por realizarem em poucas décadas o que um quaarto da população levou séculos para conseguir, poderão contar com auxílio e orientação.

É preciso, porém, que se recebam a orientação certa, do contrário o cataclismo subsequente será trágico.

O historiador Toynbee assim resumiu esse problema:

 

"Desde que o homem, no curso do seu progresso tecnológico transpôs o período inferior para o mais elevado período paleolítico, os seres humanos têm sido os Mestres da criação, no sentido de que, desde então, as forças inanimadas da natureza ou de outros seres viventes não humanos não mais puderam exterminar a humanidade ou mesmo interromper o seu progresso. Daí por diante, nada na terra, com uma exceção, pode perturbar o caminho do Homem ou arruiná-lo. Entretanto, essa exceção é uma exceção formidável, pois se trata nada menos do que o próprio Homem.

 


 

 

 

5. O caminho da Justiça

 

 

Sustentará os princípios da justiça para com a humanidade, reconhecendo que são fundamentais e de cunho universal*

 

Os famosos Diálogos de Sócrates e seus amigos na República, iniciam-se com um debate que, em substância, é tão aatual como os assuntos de um jornal de hoje. Thrasymachus afirma: "Proclamo que a justiça nada mais é do que o interesse dos mais fortes..."

Sócrates se vê forçado a defender a sua tese de que a justiça "está entre as coisas boas desejadas pelos que buscam a felicidade, tanto pelo seu valor em si, como pelos seus resultados".

Glaucon retruca, dizendo: "A vida do injusto é, afinal, muito melhor do que a do justo".

A origem da justiça segundo desenvolvida mais tarde por Glaucon, em um argumento com Sócrates, cabe aqui, pois reflete com exatidão como muitas pessoas do século XX definem a justiça.

Glaucon disse que a justiça é uma transigência "entre o melhor de tudo, que é cometer injustiças e não ser castigado, e o pior de tudo, que é sofrer injustiças sem possibilidade de represálias e, como a justiça se encontra entre dois extermos, é tolerada não como um bem, mas sim por cosiderar-se que é o menor dos males, sendo aceita pela inaptidão dos homens para cometerem injustiças..."

Talvez seja preciso ler-se outra vez a definição de Glaucon e certamente analisá-la. O "melhor de tudo" - cometer injustiças e não ser castigado!

Tem isso um tom familiar? Até que limites poderemos chegar sem violar a lei? Não será muito esperto o que não se aproveita da situação. É melhor tirar-se partido enquanto a situação perdure. É melhor aproveitar a ocasião para atacá-lo enquanto ele está fraco.

Quer seja no setor dos negócios, das relações internacionais, da vida doméstica, ou em qualquer segmento da vida em que haja associação entre os homens, há uma grande tentação de chamar-se a justiça de "o menor dos males". Todos os que lêem os jornais devem sentir que muitas pessoas aderem ao "melhor de tudo" de Glaucon.

No entanto, existe um forte senso de justiça na natureza humana. Devido a esse sentimento, os homens não têm hesitado em "sacrificar as suas vidas, fortunas e honra" em guerras em que ambos os lados estão convencidos de que a deles era uma causa de justiça. Voltaire disse: "O senso de justiça é tão natural na humanidade que parece estar desligado das leis, partidos e religiões". Trata-se, então, de algo universal sobre o qual os homens deveriam concordar. Porém, não é fácil. Kipling captou-o bem quando disse:

The world is wondrous large, seven seas from marge to marge,

and holds a vast various kinds of men;

The wildest dreams of Kew are the facts of Khatmandu,

And the crimes of Clapham, chaste in Martaban*

 

Poder-se-á nessas circunstâncias encontrar-se princípios universais? Quais são esses princípios de justiça que o Esboço das Normas pede aos rotarianos para seguirem? Para serem reconhecidos como fundamentais e com uma aplicação de âmbito mundial é preciso que esses princípios abranjam grande território, uma grande variedade de valores e muitos pontos de vista opostos que são mantidos com ardente convicção. Num mundo em que tantas disputas são resolvidas roubando de Paulo para pagar a Pedro, e em que a justiça é muitas vezes escarnecida nas conferências de paz, esses princípios têm que ser baseados em uma lógica superior, a fim de que possam elevar a justiça do nível do partidarismo ao nível do princípio.

Poderão as nações ser persuadidas? Poderá a amizade pessoal fomentada pelo Rotary entre os homens de diferentes nações auxiliar no estabelecimento desses princípios universais de justiça?

Certo visitante dos Estados Unidos foi calorosamente recebido por um Rotary Club na Escócia, em que um sócio fazia empenho especial em receber bem os visitantes, fazendo-os sentirem-se à vontade. Trinta segundos depois de ter sido apresentado, o sócio, chamando o visitante pelo seu primeiro nome, disse-lhe, "Lee, você é um americano extraordinário"!

"Muito obrigado", respondeu o visitante, com surpresa, "porém, não sei como o senhor chegou a essa conclusão se apenas nos conhecemos".

"Bem", respondeu o anfitrião, "o senhor fala escocês, a fimde que possamos entendê-lo, e isso é extraordinário. Para nós, escoceses, isso basta para que tenha o nosso afeto. Reparei ainda que o senhor não bebe Scotch e isso também é extraordinário e mais uma razão para estimá-lo, pois a maioria dos que nos visitam quase sempre esgotam todo o nosso estoque de Scotch".

Graças a esse início humorístico e cordial, a conversa que se seguiu na mesa de almoço, sobre o tema "o que as nações mais necessitam é tratar de ver o assunto do ponto de vista de outros", foi a mais animada e amistosa.

Ver um assuntos do ponto de vista de outros – isso é o teste. Um provérbio do índio americano exemplifica a idéia: "Não condene o outro homem até que tenha calçado os seus sapatos". A idéia, pois, é "por-se no lugar de outros". Há alguma forma de conseguir-se isso, além do processo normal de leitura, correspondência, debates, conferências e viagens?

Sim, há outras medidas que poderão se adotadas, que requerem ação e uso dos conhecimentos obtidos. Um dos meios é imaginar-se ser uma outra pessoa ou um representante de uma organização ou nação, que tenha um ponto de vista diferente do nosso. Muitos Rotary Clubes empregam esse método em programas do clube. Para que seja eficiente, os participantes devem preparar-se e, caso haja debate livre com a participação dos ouvintes, estes também devem estar informados. Em outras palavras, suponhamos, por exemplo, que o presidente do clube ou o encarregado do programa dirija a seguinte pergunta a um sócio. "Abdullah, se você fosse americano, qual seria a sua opinião sobre o reconhecimento da China comunista"? Provavelmente seria difícil para o rotariano Abdullah identificar-se com a maneira de pensar de um norte-americano e vice-versa, porém o esforço permitir-lhe-á libertar o seu pensamento das limitações provincialistas, revelando, ainda, que a justiça tem, pelo menos, dois aspectos.

Aproveitando esse método ainda de um modo mais extenso, várias comunidades organizaram conferências conhecidas como "Ponha-se no lugar deles", em que os residentes da localidade formam grupos de a5 a 8 pessoas para "representarem" uma nação numa conferência internacional. Esses grupos discutem os problemas mundiais importantes numa série de reuniões públicas que se estendem por várias semanas.

Poderá um indivíduo com conhecimento de causa, que consegue informações de primeira mão, através de correspondência com rotarianos de outros países, defendendo o ponto de vista do "país escolhido" num debate público, realmente "por-se no lugar de outras pessoas", que vivem a milhares de quilômetros de distância? Há provas de que ele pode e de que consegue formar um novo conceito de justiça e eqüidade.

Um norte-americano que representava a Bolívia nesse projeto, foi um dia comprar café no armazém e viu que o preço havia baixado. "A minha primeira reação", disse ele, "foi, que lástima! Os sul-americanos vão ser prejudicados com essa baixa de preço!"

Há outro método, citado anteriormente, que tem sido empregado por rotarianos, mas que é também aproveitado por não rotarianos, que serve como "fita métrica" para se julgar se algo é realmente justo. Esse método é "A Prova Quádrupla do que pensamos dizemos ou fazemos:"

É a VERDADE?

É JUSTO para todos os interessados?

Criará BOA VOANTADE e MELHORES AMIZADES?

Será BENÉFICO para todos os interessados?

Conquanto essa prova tenha sido originalmetne ideada para um negócio que estava às portas da falência e tenha sido desenvolvida pelo Rotary, inicialmente, como um complemento aos serviços profissionais, tem na realidade uma aplicação maior. A experência, realmente tem demonstrado constantemente que quando um indivíduo emprega a Prova Quádrupla com toda a siceridade no seu negócio ou profissão, os resultados são também evidentes na sua conduta como um pai de família, amigo e cidadão. Segundo a convicção de um rotariano das Filipinas essa simples "fita métrica" das relações humanas poderá ser muito valiosa também no setor dos serviços internacionais:

 

Na promoção da quarta avenida de serviços rotários, a exempificação da Prova Quádrupla nas relações diplomáticas entre as nações, certamente exercerá grande influência. O mundo está repleto de propaganda que confunde as nossa mentes e produz uma distorção em nossas opiniões. Há muito mal entendido e animosidade em conseqüência de tanta distorção da verdade. Creio que cabe ao Rotary difundir a genialidade da Prova Quádrupla através de sua quarta avenida de serviços.

Não se poderia, da mesma forma, aplicar essas quatro perguntas simples na busca dos princípios universais de justiça? A evidência do valor da Prova Quádrupla nesse sentido é que tem sido aceita e adotada em muitos países em que há Rotary Clubes. Não é um código de ética. Lembra apenas as pessoas a fazerem o seu julgamento de um modo justo. Não diz o que fazer. Simplesmente pede que examinem o que pensam,dizem e fazem, à luz dos seus próprios padrões. Portanto, um princípio de justiça que responda positivamente à Prova Quádrupla poderia ser aceito por todos.

Possivelmente, o rotariano que estiver explorando o caminho da justiça desejará fazr esse teste consigo mesmo. Um exame crítico dos seus próprios princípios de justiça é um modo de reafirmar as suas convicções, de provar que são mais do que lemas pomposos. Além disso, esse exame poderá revelar-lhe oportunidades para difundi-los no mundo inteiro.

Para ilustrar esse ponto, vejamos o princípio tão discutido da auto-determinação. Submetamo-lo à Prova Quádrupla. A VERDADE é que esse princípio conseguiu um lugar especial na história de nossa época. O fato mais notável na política internacional desta geração não são as guerras cujas manchetes encheram os jornais, mas sim o fato de que quase metade do gênero humano conseguiu a sua autonomia. JUSTO para todos os interessados certamente é a liberdade de todos os povos, de modo que dirijam os seus próprios destinos, façam os seus próprios erros e as suas contribuições à humanidade. E, mais ainda, quando a independência desses povos é conseguida, eles parecem ter maior boa vontade e amizade com os seus antigos governos. Os benéficos resultados ainda não são conhecidos, porém as esperanças dessas novas nações são grandes e esperam empreender grandes realizações.

O princípio de auto-determinação parece responder à Prova Quádrupla, porém a fim de manter-se um princípio é preciso mais que uma aprovação passiva. "Justiça", disse Disraeli, "é a verdade em ação". A justiça deve transcender os problemas que surgem ao torná-la de caráter universal. E os problemas são muitos. Uma conseqüência da auto-determinação é a multiplicação de nações, como a que se produziu na Europa depois da Primeira Grande Guerra Mundial e que, segundo alguns, foi em parte responsável pela segunda conflagração.

Surge hoje um contraste entre o desenvolvimento da interdependência econômica e a tendência à independência política. Existem outras dificuldades relacionadas ao preparo de um povo, a fim de que possa reger o seu próprio destino. Muitos crêem que é essencial para as nações novas conseguirem um certo nível de educação, a fim de capacitá-las a funcionar no mundo moderno. Para outros, no entanto, essa exigência não é tão essencial.

Os esforços que os rotarianos empreenderam para transcender esses problemas proporcionarão oportunidades que conduzirão ao caminho da justiça. No mundo inteiro, entretanto, esses esforços estão sendo feitos. São eles tão variados como os problemas e as determinadas situações. Nos novos países da Ásia, os rotarianos lutam com o problema de conseguir o estabelecimento de relações exteriores com as novas fronteiras. Os rotarianos da Europa, cientes da urgência da interdependência econômica, procuraram substituir a tradição de separação dos estados apoiando o movimento para a união da Europa e transformando os cidadãos desses tradicionais estados em "Europeus". Essa tend6encia encontrou expressão através da criação da Comunidade do Carvão e do Aço, Euratom e do Mercado Comum.

As comissões não européias dos Rotary Clubes na África do Sul estão auxiliando os africanos a se desenvolverem, a fim de que possam governar-se, conservando as características da sua cultura. Nas Antípodas, os indivíduos que manifestaram o princípio da auto-determinação, emigrando, recebem as boas vindas do Rotary. Foi um Rotary Clube que resolveu chamá-los de "novos australianos", em homenagem à sua nova posição e os rotarianos empenham-se em ajudá-los na sua adaptação e realização dos seus sonhos.

De modo semelhante, poder-se-á explorar outros princípios de justiça com a finalidade de descobrir-se oportunidades de serviço a fimd e mantê-los e torná-los mundiais. Em todos eles há um fator comum: o desenvolvimento do direito internacional, pois a antítese da justiça em todas as sociedades é a idéia de que o poder faz a lei. Como disse Pascal: "A Justiça e o poder devem ser aliados, a fim de que o que for justo seja poderoso e o que for poderoso seja justo". O curso da civilização tem sido a busca de um preceito de lei que substitua os métodos do homem da caverna.

A humanidade sabe o que deve fazer. A grande verdade do argumento de Benjamin Franklin pode ser vista hoje mais claramente:

Tem que imperar a justiça tanto entre as nações vizinhas como entre os vizinhos das comunidades. Aquele que assalta as pessoas na estrada é um ladrão, quer roube sozinho ou em quadrilha; e uma nação que provoca uma guerra injusta não é mais do que uma grande quadrilha de bandidos.

Poder-se-á fazer com que as leis sejam aplicáveis à Era Atômica Espacial, porém os povos do mundo insistem em conceitos antiquados, qualquer coisa que seja para não se submeterem ao preceito da lei. Segundo um historiador "o único modo de conseguir-se que o gênero humano descubra a beleza da justiça é mostrando-lhe, em termos claros e simples as conseqüências da injustiça..."

E essas conseqüências são cada vez mais evidentes. Um ex-presidente da Associação Americana de Advogados disse:

"As bombas atômicas e de hidrogênio provocaram nos povos uma veemente ânsia pela paz, sem precedentes na história da humanidade. Essa é uma grande oportunidade que poderá ser aproveitada ou perdida. Nós, os advogados, devemos criar o mecanismo legal necessário para manter a soberania nacional essencial, proporcionando ao mesmo tempo, soluções pacíficas às disputas entre nações, sob o império da lei..."

Mesmo antes que as bombas atômica e hidrogênica tivessem alertado a urgência da medida, Robert Taft, falecido senador dos Estados Unidos, percebeu com uma visão profética o que depara o futuro:

"Acredito que o único meio de estabelecer a paz é passar uma lei, aprovada por todas as nações, para governar as suas relações mútuas, obtendo o compromisso formal de todas elas de obedecerem à lei e às decisões derivadas da sua aplicação".

Entretanto, os povos do mundo vacilam na entrada do caminho da justiça, de um modo semelhante ao de Sir Edward Coke quando ele, na presença do Rei James, exclamou: "O Rei está abaixo de Deus e da Lei", para depois cair de joelhos, aterrorizado de que isso lhe custasse a cabeça.

"Se os homens fossem anjos", comentava O Federalista, "não seria preciso um governo. Na formação de um governo administrado por homens para dirigir outros homens, a grande dificuldade repousa no seguinte: primeiro tem-se que investir o governo de poder para reger os governados e depois obrigá-lo a fiscalizar-se a si próprio..."

Obrigá-lo a fiscalizar-se a si próprio... Se há um problema que deva receber a atenção de todos os homens, mulheres e jovens desta geração, é a necessidade do desenvolvimento e da aplicação de leis internacionais. A questão não é apenas evitar-se guerras num a época em que as nações contam com meios de destruição total, mas também a questão do progresso humano em todos os setores derivado do estabelecimento de um sistema de direito internacional. No entanto, para a maioria das pessoas o direito internacional é um assunto remoto, sem relação alguma com a sua própria sobrevivência e com as perspectivas de uma vida mais abundante a elas e aos seus descendentes.

Novamente, o Esboço das Normas encoraja o rotariano a fazer uma contribuição prática. A fim de sustentar os princípios de justiça e difundi-los mundialmente, o rotariano deve estar informado e informar os demais não somente sobre a situação atual do direito internacional e as suas perspectivas de progresso, como também sobre os sacrifícios que poderão ser necessários no estabelecimento do preceito da lei. Para conseguir que as nações deixem a lei da força e aceitem a força da lei, é preciso sacrifício e, se isso for ignorado, não se poderá esperar resultados satisfatórios. O caminho da justiça inevitavelmente conduz ao caminho do sacrifício.

Não sugere essaa situação um trabalho específico que poderá ser feito por qualquer Rotary Clube? Um intenso estudo sob a orientação de sócios em classificações de direito? As reuniões domiciliares, os programas do clube, os foros públicos, as conferências "Ponha-se no lugar deles" serão práticas? Valerá a pena lutar?

O historiador Toynbee, depois de examinar a história, desenvolvimento e queda de várias civilizações, concluiu:

"De um modo geral, a urgência para uma codificação (de leis) atinge o seu ponto culminante na penúltima etapa que precede a catástrofe social, muito depois de haver passdo o auge de realizações em jurisprudência, e quando os legisladores do momento encontram-se em fuga desordenada em uma batalha sem possibilidades de triunfo, com as forças ingovernáveis da destruição..."

O caminho da justiça passa por todos os recantos do mundo, por vilas, departamentos governamentais até pelas conferências de cúpula mais importantes. É como o denominou Daniel Webster, "o ligamento que mantém juntos os seres civilizados e nações civilizadas."

Justiniano, o grande legislador, chamou a justiça de "o desejo e esforço constantes de dar a cada qual o que lhe corresponde".

Será desnecessário observar que as nações são como os povos, porém a idéia serve de introdução a esta história contada por um jornalista que havia regressado de um país no início do seu desenvolvimento:

Um pobre sapateiro fez um par de sapatos um dia, que ele vendeu por 63 centavos. Se ele o vendesse na sua própria vila, alguma pessoa da alta classe poderia se apoderar do sapato, sem remunerá-lo. Se ele protestasse, seria severamente castigado. Assim ele preferiu fazer uma grande caminhada, debaixo de um sol ardente, mas valeu a pena. Disse ele que não era questão do dinheiro em si, porém algo muito mais importante do que algumas moedas. O importante era a justiça. "O que eu quero é ver justiça", declarou. "Quero ser tratado como um igual. Quero que respeitem a minha dignidade".

 


 

 

6. O caminho do Sacrifício

 

Esforçar-se-á sempre para promover a paz entre as nações e estará disposto a fazer sacrifícios pessoais por esse ideal*

 

Em 1958 o "Saturday Review" publicou um artigo de uma página, como se fosse um anúncio de um concurso. Em letras grandes, o título anunciava o seguinte:

CONCURSO MUNDIAL

$ 1.000.000.000.000 de dólares

EM PRÊMIOS ISENTOS DE IMPOSTOS

A seguir, a informação:

CONSIDERE-SE JÁ UM PARTICIPANTE

Se seu nome começar com as letras A, B, C, etc., ou com Δ, Ø, etc., ou se morar nos Estados Unidos, Rússia, França, etc., considere-se um dos participantes. Os seus filhos e os filhos dos seus filhos já estão também inscritos no concurso.

PRÊMIOS

Os prêmios avaliados em US $ 1.000.000.000.000 incluem o seguinte:

Uma camada de oito quilômetros de espessura de ar não-radioativo.

Cidades formadas por prédios, não por escombros.

Reservatórios d'água sem estarem contaminadas.

Glebas de terra capazes de produzir alimentos.

A sua casa, o seu automóvel, a sua televisão (e, dito de passagem, a sua vida) e várias outras coisas extras, tais como a energia ilimitada do átomo e talvez as viagens interplanetárias.

Um pouco mais adiante, aparecia o seguinte:

Como se poderá sair do concurso? - Isso é absolutamente IMPOSSÍVEL.

E, finalmente -

Se desejar ganhar o concurso, ajude a encontrar o caminho da Paz Duradoura.

No capítulo anterior, mencionou-se que o caminho da justiça conduz inevitavelmente ao caminho do sacrifício. Em primeiro lugar, é evidente que mesmo ao falar-se sobre a paz há certo sacrifício. Em certas ocasiões e para algumas pessoas, a palavra paz está obscurecida pela associação com outras coisas – uma máscara para ocultar desígnios de subversão, tirania e agressão. Desconfiem, dizem, dos que apregoam "paz, paz", quando não há paz.

Talvez esse amargo sentimento somente reflita de forma extrema o desapontamento geral ante as conseqüências da Segunda Guerra Mundial. A humanidade sofrreu tantas desilusões! Houve uma capitulação incondicional. Por fim reinava a paz e todos podiam novamente dedicar-se, tranquilamente, aos seus afazeres cotidianos, deixando que os diplomatas se preocupassem com as "relações exteriores".

Um embaixador americano, falando a um Rotary Clube na Inglaterra, fez o seguinte comentário:

Participei da última guerra como muitos dos senhores e acreditava, sinceramente, que lutávamos para acabar com as guerras, que lutávamos pela democracia e que os nossos filhos colheriam algum fruto do sacrifício feito pela noss geração... Realmente não nos preocupamos com os anos seguintes. Se demonstramos certa preocupação não o fizemos o suficiente ou não conseguimos os recultados desejados. Na história da humanidade muito raramente os homens têm tido uma segunda oportunidade e nós a temos agora.

 

Não poderia qualquer observador consciencioso dos serviços internacionais expressar esses sentimentos e aplicá-los a si próprio? Não espressam eles com fidelidade estes momentos da história?

A última guerra quase destruiu a civilicação. A fome e a humilhação, a desorganização social e econômica, o vazio deixado pelos poderes derrotados produziram uma época de dificuldades e de tensão. Os que concebiam que a paz fosse como o remate de um conto de fadas em que "daí em diante todos viveriam felizes", sofreram uma grande desilusão. Os desenhos nos jornais que representavam a paz como se fosse um anjo ou uma noiva, contribuíram para a desilusão do público. A paz, ao contrário, deveria ter sido representada por uma noiva na vida real – uma moça que carrega em seus ombros uma grande responsabilidade – o trabalho pela harmonia e estabilidade do matrimônio, se é que vai ter sucesso. Esse conceito de paz como um chamado para o trabalho em lugar de constituir uma condescendência à irresponsabilidade pessoal está definido no Esboço das Normas com o seu apelo a sacrifícios pessoais. Talvez isso nunca tenha sido assinalado de modo mais eloqüente do que no discurso pronunciado pelo valente apóstolo da confraternização mundial, o falecido John Winant. Interrompendo o discurso que pronunciava, interpelou os ouvintes:

"Estão os senhores contribuindo para a paz hoje com a mesma inatensidade que contribuiram ao país nos dias de guerra?"

Houve uma pausa antes e depois de ter dado a sua própria resposta: "Eu não estou".

Os que fizeram um retrospecto do período após guerra poderão proceder a um exame de si próprio. Em tempos de guerra, o espírito de sacrifício está onipresente e os esforços pessoais são medidos segundo a "maior dedicação à causa". E, com o propósito de destruição, sacrifica-se o que há de melhor e mais generoso na natureza humana. No entanto, quando se trata de salvar a pátria da destruição e defender a paz, a liberdade e a sobrevivência de tudo que nos é caro, o homem não tem o mesmo fervor.

Faz isso sentido?

Talvez os extraordinários sacrifícios em tempos de guerra sejam explicados pelo fato de que muitos reagem melhor durante uma crise. Situações excepcionais e diferentes despertam o heroísmo no homem. Porém, é a guerra algo excepcional nas efemérides da humanidade? A história indica o contrário. No decorrer dos anos, a experiência diferente tem sido os breves intervalos de paz. Mesmo no século XIX, em que muitos pensavam ser a paz uma situação normal, muitas foram as pequenas guerras. No século XX, os períodos de paz em todo o mundo são apenas medidos por meses, não por anos.

Em eras passadas, talvez se pensasse que a guerra, afinal, fosse um assunto exclusivamente para cavalheiros ou soldados profissionais, cuja luta não ia além dos campos de batalha. Durante a Guerra das Rosas, por exemplo, diz-se que no momento em que a batalha ia começar, ouviu-se o toque da corneta e os latidos dos cães na caça à raposa. Os soldados imediatamente detiveram as suas manobras para permitir que os caçadores pudessem passar entre eles, retornando depois às suas posições para iniciarem a luta.

As guerras conduzidas de uma forma tão cavalheira no passado, certamente mudaram de aspecto em tempos modernos. Agora, a guerra é total, com a mobilização dos povos e seus recursos, visando a destruição completa. Não há ninguém imune. Não há esconderijos. Não há mais civis. As crianças se tornarão "combatentes" do mesmo modo que os adultos.

Não exige tal estado de coisas uma revisão dos conceitos de paz e guerra? Albert Einstein, o gênio da metemática, pai da era atômica, projetou o problema em grande escala e com termos vigorosos:

É essencial adotar-se uma nova forma de pensar se é que a humanidade vai sobreviver e ascender a planos mais elevados.

Frequentemente, nos processos evolucionários as espécies têm que se adaptar às novas condições para poder sobreviver. Hoje, a bomba atômica alterou profundamente a natureza do mundo em que vivemos.

O carro blindado é uma defesa contra as balas, porém não há defesa na ciência contra a arma que pode destruir a civilização.

A nossa defesa não repousa em armas nem em abrigos subterrâneos.

A nossa defesa repousa na lei e na ordem. À vista dos novos conhecimentos a natureza humana tem que readaptar o seu modo de pensar.

 

Não há otimismo fácil no rotariano que luta pela promoção da paz, que se esforça para deter e inverter o curso dos acontecimentos que nos arrastam em direção à guerra. Ele está desiludido com as panacéias baratas. É realista. Sabe que a vitória dessa luta não será conseguida pela adesão a um desses grupos organizados para exercer pressão ou pela aprovação de alguma resolução no seu clube. O rotariano tem que indagar de si próprio que sacrifícios pessoais ele e os seus semelhantes devem fazer, a fim de que a humanidade possa sobreviver e ascender a planos mais elevados.

Poderá alguém responder por ele? Claro que não, porém ele se sentirá fortalecido e inspirado pelas consultas com outros homens sinceros. Em última análise, a resposta deve vir da sua própria consciência e ser manifestada nas suas ações pessoais. Sugere-se, aqui, apenas algumas formas de sacrifício para a deliberações e debates.

A primeira e possivelmente a mais evidente de todas é a que pesa sobre todos os contribuintes que pagam impostos de renda, pesando na economia do mundo inteiro uma importância de cerca de $ 120.000.000.000 de dólares por ano. No país mais rico do mundo a "proteção da paz através de armamentos" impõe a cada contribuinte um sacrifício pessoal equivalente ao salário de um mês. "Aquele que deseja a paz, deve se preparar para a guerra", foi a justificação da política na Roma dos Césares. Entretanto, foi no século XX que um famoso almirante fez uma exposição vigorosa sobre o assunto:

Não sou partidário da guerra. Sou pela paz. Se se martelar constantemente, tanto no nosso país como no de outros que estamos prontos para agir instantaneamente com todas as unidades da nossa força no fronte e que seremos os primeiros a arrancar as tripas do inimigo e a pisar-lhe quando cair por terra, a ferver em azeite os seus prisioneiros e a torturar as suas mulheres e filhos, então os demais se manterão a uma distância respeitável.

Será mesmo que se manterão a uma certa distância? Essa antiga forma de sacrifício que está ainda tão em moda, não tem evitado guerras. Tem contribuido para aumentar a insegurança geral, fomentando a corrida para a supremacia das armas e finalmente tem produzido os grandes "intimidadores"- ontem, a ameaça do almirante, amanhã os foguetes teleguiados com cones de carga nuclear. Nunca foi essa política mais vigorosamente denunciada do que pelo presidente de um país que a tinha adotado:

Cada arma de fogo que é fabricada, cada navio de guerra que é lançado ao mar, cada foguete que é disparado significa em última análise, um roubo dos que têm fome e não têm o que comer, dos que têm frio e não têm agasalhos para vestir.

Este mundo em armas não está gastando dinheiro sozinho. Está desperdiçando os esforços dos seus trabalhadores, o talento dos seus cientistas, destruindo as esperanças dos seus filhos.

O custo de um grande avião de bombardeio é este: a construção de uma escola moderna em mais de trinta cidades e dois hospitais completamente equipados.

E, prosseguindo ainda, com outros exemplos concluiu com essas palavras:

Isso, repito, é a melhor forma de vida, encontrada no caminho que o mundo está seguindo.

Isso não é um modo de vida no seu verdadeiro sentido.

Sob as nuvens ameaçantes da guerra, a humanidade se encontra crucificada numa cruz de ferro.

Se se pudesse de um golpe eliminar a guerra, que enormes benefícios a humanidade poderia conseguir com uma quantidade equivalente de dinheiro, energia e talento. A idéia aaaté ofusca a imaginação. Será possível em um sonho dos mais fantásticos conceber o que se poderia fazer com 120 bilhões de dólares anuais, aplicados a normas de paz e serviço? Da forma em que as coisas se encoantram agora, parece que a humanidade luta para subir os degraus da civilização com uma perna apenas.

O caminho do sacrifício poderá ser interceptado, sem dúvida, por tradições fortemente vinculadas. Há – e em grandes números – os que dizem que a história se repete, que a humanidade de hoje não é melhor do que a de nossos antepassados. Haverá sempre "guerras e rumores de guerras". A isso poder-se-ia responder que os nossos antepassados não estavam atraídos ao caminho do sacrifício e nem se encontravam na situação do homem na Era Atômica. A verdadeira resposta, entretanto, foi dada por um outro militar que afirma inequivocamente que, o que a humanidade agora precisa é efetuar um "ataque na instituição da guerra". Certo rotariano da América do Sul, expressou-se assim:

De acordo com o objetivo do Rotary, devemos analisar as causas mais profundas da guerra e os motivos diabólicos que movem os homens a matarem-se; que estadismo os impele a fazer o que têm horror e que reconhecem como abomináveis e em contradição ao nosso ideal de dar de si antes de pensar em si...

O que se propõe não é impossível e nem requer uma inteligência superior, porém é de uma absoluta necessidade. A hora de agir á agora.

Outro rotariano afirmou: "Trata-se de um grande trabalho que deve ser empreendido com o mesmo alento e esforço que foram empregados para produzir a primeira bomba atômica... A civilização não poderá manter dois ou mais campos armados às portas da catástrofe nuclear". A paz imposta pelo medo ou por forças aterrorizantes em que os beligerantes se ameaçam continuamente poderá conduzir somente à guerra nuclear.

Um caçador na África estava se aproximando da sua presa quando, para desaponto seu, os seus fatigados guias sentaram-se para descansar. Protestou com veemência, mas de nada adiantou. Fez ameaças, suplicou e mesmo ofereceu mais dinheiro, porém os homens continuavam sentados sob a sombra amena de uma árvore. "Por que?", perguntou ele ao líder, "Por que têm que parar agora?"

O chefe respondeu com um sorriso. "Os homens dizem que eles correram tanto que as suas almas saíram dos seus corpos e que têm que esperar agora para que elas novamente voltem aos seus corpos."

A procura incessante de poder, riquezas, influência e melhor tecnologia tem arrastado os homens e nações ao coração da selva. E, agora, com ess falta de cultura e lei, precisam esperar que as suas almas novamente se reunam aos corpos. As nações são como crianças com armas na mão. É preciso que a criança aprenda as regras e as leis. É inconcebível que uma criança de seis anos vá à escola levando uma carabina carregada, porém mesmo a criança compreende porque a polícia tem que levar o revolver à cintura.

"É impossível conceber-se até que ponto, daqui a mil anos, o homem terá conseguido conquistar a matéria", escreveu Benjamin Franklin. "Que daríamos para que a moral fosse tão suscetível de melhoramento que o homem deixasse de se conduzir como um animal".

A urgente busca de um modo de elevar a ciência social ao nível da tecnologia é uma gigantesca arena de sacrifícios. Que importa que os homens cruzem os mares com a velocidade do som, se quando encontram os seus vizinhos não têm nada a dizer! Nesse vácuo aparece o foguete teleguiado com sua carga nuclear. Nesse cenário medram o preconceito, a ignorância, a superstição, a tirania. Os problemas prementes do homem pertencem agora ao domínio do espírito - "o espaço interior" da personalidade humana.

Essa nova orientação dirigida à "vida interior do homem" requer gastos dos recursos e competência na procura de significados mais profundos da vida. Isso significa que a pesquisa deve ser aplicada com igual vigor ao homem e à máquina – ao espiritual e ao material. Isso significa que devemos criar um novo ambiente de aventura nas relações humanas que capture a nossa imaginação e entusiasmo de modo tão intenso como as viagens espaciais. Isso significa que a busca de vínculos de união entre os homens e as nações deve ser tão urgente como o desejo de ligar a Terra à Lua.

Outro setor de sacrifício é o movimento para conseguir que as nações renunciem às suas armas, resolvendo as suas diferenças segundo os ditames da lei. O alvo é procurar um convênio entre as nações que se estão armando, para que abandonem a corrida de armamentos – um plano que certamente é mais difícil de ser aplicado do que proposto. Que sacrifícios serão impostos a cada país? E que garantias poder-se-á proporcionar às nações que se desarmam de que as outras respeitarão o pacto? Isso abre a caixa de Pandora de inspeção mútua, a habilidade de descobrir e o direito de restringir o poder dos que não obedecem.

Há uma fábula que conta que os animais poderosos da floresta se reuniram para discutir o problema do desarmamento. "Mostremos ao homem, o nosso inimigo comum", disse o leão, "como viver juntos em paz. Se dermos o exemplo, talvez ele deixe de caçar e de nos exterminar".

"O que você sugere?", pergutou o urso.

O leão, voltando-se para a águia, disse: "Vamos abolir as asas".

A águia, por sua vez, virando-se para o touro, retrucou: "Acabemos com os chifres".

O touro, encarando o leão, respondeu: "Eliminemos os dentes e as garras".

Um grande silêncio envolveu a assembléia por alguns momentos. Todos voltaram as suas vistas para o urso, que calmamente disse: "Proponho a eliminação de todos os meios de defesa. Desse modo todos vocês podem contar com a segurança dos meus carinhosos braços."

qualquer programa de desarmamento requer sacrifício. Se as grandes potências concordarem em desarmar-se, deixarão de ser grandes potências. Não mais poderão impor as suas opiniões a outras nações, valendo-se de ameaças. Se desejarem estar seguras de que os demais cumprirão com os seus compromissos, elas também têm que se submeter a medidas de controle.

Para alguns povos essas concessões de autoridade e prestígio representam profundo sacrifício pessoal. Conquanto outras nações possam aprovar calorosamente a política de restrição imposta às grandes postências, por sentirem que a sua importância aumenta pela eliminação de ameaças, descobrem por outro lado que a sua responsabilidade é maior. Poderão ter que renunciar à sua cômoda atitude de neutralidade e contribuir com as forças armadas para a defesa comum. Portanto, o desarmamento significa sacrifício também dos povos de países com poder menor.

No entanto, quem poderá negar que esses sacrifícios não se justificam se puderem evitar o horror de uma terceira conflagração mundial? A pergunta deve ser – serão esses sacrifícios suficientes?

A resposta é uma veemente negativa. De fato, esses sacrifícios se tornarão mera teoria a não ser que sejam nutridos por uma espécie de sacrifício maior e mais significativo – o sacrifício pessoal. É na esfera individual, nas relações de pessoa a pessoa que o verdadeiro sacrifício começa. E tem que começar e desenvolver nesse setor até conseguir que ascenda ao nível da liderança nacional e que a visão dos estadistas seja o reflexo da opinião pública bem orientada. Woodrow Wilson expressou-se bem: "No processo da liberdade se eu for o vosso líder, deveis falar comigo e não por ser eu o vosso líder devo falar a vós. Tenho que ouvir – se for ser fiel aos preceitos encerrados pela liderança – as vozes de todos, dos homens de todas as classes e condições."

No entanto, o simples processo de se fazer ouvido é um sacrifício – maior em alguns lugares do que em outros, porém a amarga ironia é que nos lugares em que isso é mais fácil e mais se espera que suceda, constitui um sacrifício grande demais para ser feito. Por que vou me incomodar? Quem terá interesse na minha opinião? Ando muito ocupado. Os políticos são os que tomam as decisões.

Porém o processo de fazer com que sejamos ouvidos, baseado em conhecimento de causa, discussão e reflexão, representa um desafio ainda maior. É muito mais fácil pedir a um "especialista" que faça a palestra ao Rotary Clube do que procurar os fatos e fazer a gente mesmo a palestra. Considerando que se decida apresentar o assunto, é mais fácil fazer uma conferência baseada em suas próprias opiniões e dados do que tentar dirigir uma discussão animada em que muitos pontos de vista diferentes são apresentados.

A conferência "Ponha-se no lugar deles" mencionada anteriormente, poderá levar semanas de estudos pelos participantes, porém onde foi realizada contribuiu muito para melhorar o nível de compreensão sobre os assuntos mundiais. Se tais estudos e debates fossem levados a efeito em todo o mundo, quem poderia calcular os benefícios obtidos? No entanto, não se pode negar que todas as atividades desse gênero exigem árduos sacrifícios pessoais, que nos privam dos momentos de lazer.

Péricles disse: "Não permitimos que os nossos afazeres pessoais absorvam a nossa atenção de modo a interferir na participação nos assuntos da cidade; mantemos muito alta a nossa independência de espírito e a confiança em nós mesmos, porém consideramos inútil aquele que é indiferente aos assuntos da cidade." E os gregos tinham uma palavra para denominar o homem "inútil", o cidadão privado - "idiotes" de onde deriva o vocábulo "idiota".

Isso conduz a uma outra forma de sacrifício pessoal: a consciência de que o nosso ponto de vista talvez não esteja certo, de que as fontes de informações possam estar insufladas de propaganda, de que a noss cultura talvez possa assimilar algo de outra cultura. Para muitas pessoas isso é o máximo dos ferimentos – ferimento ao seu orgulho pessoal e nacional. O observador superficial não pode conceber que os princípios que ele crê, que o modo de vida que aceitou, possam se tornar quase irreconhecíveis na próxima geração e que, no final, os seus fundamentos possam cair por terra em benefício da sociedade.

Conquanto não seja fácil, uma flexibilidade mental de tal índole poderá tornar mais fácil o caminho do sacrifício. Os gregos com as grandes realizações da sua civilização devem ter compreendido bem esse ponto. Por milhares de anos os troféus, ou monumentos, eram o símbolo da vitória e refletiam nas suas estruturas e subsstância a matéria natural do país. No Egito, em que as pedras eram abundantes, o monumento era representado por uma lousa ou laje com uma inscrição dos feitos gloriosos. Mais ao oriente, utilizavam a areia, disposta em pequenos montes ou em formas estranhas. Na Grécia, usava-se madeira, com a qual o vitorioso fazia o seu monumento. No entanto, não era permitido consertá-lo. O vitorioso sabia que logo estaria corroído, acabando por desaparecer, mesmo ainda quando em batalha ou no processo de construção. Ele bem sabia que a única coisa duradoura era a sua falta de permanência.

Essa atitude não significa vacilação ou falta de objetivos. O passado dos gregos demonstra que não é uma doutrina para conseguir a paz custe o que custar. Entretanto, tal atitude cria uma perspectiva e a perspectiva é uma das tabuletas de guia no caminho do sacrifício.

É nesse ponto que os caminhos da justiça e do sacrifício se unem, porém uma análise das atitudes que conduzem ao sacrifício ficaria incompleta sem outra referência a um dilema importante desta era atômica. Mesmo que o perigo da aniquilação fosse abolido, surge outro problema que acarreta futuros desastres. A miséria e a ignorância nos países menos desenvolvidos proporcionam um paraíso para o agitador, para o ambicioso, ou para a nação que esteja procurando conseguir poderes, aproveitando a situação caótica. As Forças Armadas não poderão conter os insurgentes, pois mais cedo ou mais tarde eles também se armarão. No entanto, o desarmamento nacional e o controle de grandes potências não são em si uma solução, a menos que se estabeleça uma nova ordem que alimente as esperanças e consiga a lealdade desses milhões que estão emergindo.

O ponto crucial da questão é: Quem são esses milhões que estão emergindo? Selvagens ignorantes que devem ser ignorados? Futuros trabalhadores em uma tecnocracia regimentada? Soldados de um exército maior e mais destrutivo? Peões no jogo da política das grandes potências? Ou homens livres e úteis que devem ser auxiliados, a fim de que possam conquistar seus direitos legítimos de dignidade, autonomia e amor próprio. Cada indivíduo responderá a seu modo a essas perguntas, porém terá que se pronunciar – mesmo que decida ignorá-las.

A pessoa atraída ao caminho da paz terá também uma nova visão do que a Paz significa. Refletirá e discutirá a respeito dessa palavra, procurando novos significados e novas técnicas. Se o conceito continuar a ser negativo e definido como "ausência de guerra", se os esforços forem unicamente limitados a conter os agressores ou a reduzir os meios de agressão, os resultados poderão ser desalentadores e perigosos. Somente transformando-se o conceito de modo a traduzir em ação positiva e construtiva para o estabelecimento da ordem no mundo, poderá o indivíduo descobrir o caminho que justifique o seu sacrifício pessoal.

O analfabeto que se esforça para aprender as primeiras letras está lutando em prol da paz. O lavrador que trabalha para aumentar a sua safra, os homens da ciência que combatem as enfermidades ou que pacientemente procuram meios para mitigar as fadigas do trabalho cotidiano, os homens de negócios e os membros de sindicatos trabalhistas que procuram elevar os padrões de ética nas suas profissões, os cidadãos que defendem a causa dos direitos humanos ou que proporcionam liderança no desenvolvimento do direito internacional e muitos outros, são os heróis na busca da paz. Os caminhos da liberdade, progresso e justiça já apresentados aos rotarianos no Esboço das Normas, unem-se ao caminho do sacrifício – sacrifício pessoal em prol da paz. E é preciso lutar-se pela paz!

Se as relações internacionais forem apenas a preocupação de demagogos e diplomatas, os obstáculos à paz talvez nunca sejam vencidos. A paz tem que ser o alvo pessoal dos homens práticos de negócios, que estão acostumados a por as idéias em execução. Se esses homens se detiverem para considerar o significado de suas vidas, sentirão precisamente que eles têm o maior interesse de todos nesse assunto. São os que têm mais a perder nesse vendaval que nos arrasta em direção à guerra e à revolução e os que mais se beneficiarão com o estabelecimento de uma nova ordem baseada na liberdade, progresso e justiça.

Os rotarianos sentem uma grande atração pelo caminho do sacrifício. Isso é realmente "Dar de Si Antes de Pensar em Si". Milhares de rotarianos estão respondendo a esse chamado. Muito mais poderia ser conseguido, entretanto, com uma maior dedicação aos princípios rotários, com um estabelecimento mais diligente dos contatos rotários e com uma liderança mais ativa e melhor informada em suas próprias comunidades. É isso esperar demais de um "companheirismo mundial de homens de negócios e profissionais unidos no ideal de servir"?

Na geração passada, o destino do homem era projetado como "uma corrida entre a educação e a catástrofe". Com o decorrer dos anos esse ritmo se acelerou. O chamado ao sacrifício pessoal é cada vez mais urgente. Apelam os estadistas, os pedagogos, os sacerdotes de todas as crenças, porém foi um general que trouxe ao campo de batalha a convicção mais cetegórica:

Agora que a luta cessou temporariamente, a impressão mais forte que emerge dessa cena é a completa inutilidade do enorme sacrifício de tantas mortes e mutilações. Aleijou-se uma nação e encontramo-nos hoje da mesma forma em que nos encontrávamos antes de começar.

 

Essa esperiência focaliza, pois, a grande futilidade da guerra moderna, o seu completo fracasso como um árbitro de dissensões internacionais. Temos que ver, afinal, que a guerra é um método antiquado como instrumento da diplomacia, que não oferece soluções, mas sim suicídio internacional. Conquanto precisemos estar preparados para enfrentar o infortúnio caso a guerra arrebente, devemos estabelecer normas nacionais e internacionais conducentes à meta de abolição definitiva da guerra da face da terra. Não podemos controlar a guerra, mas podemos aboli-la.

 

É evidente que a abolição da guerra é um sério chamado para nações que exigem sacrifício. Com as suas tradições antigas e larga história, com uma auréola de glória criada e difundida por lendas e canções, a guerra custará a desaparecer. Porém, os troféus que forem conseguidos com a batalha vitoriosa contra esse flagelo da humanidade justificam qualquer esforço.

 


 

 

7. O caminho da Lealdade

 

Promoverá e cultivará um espírito de compreensão das crenças de todos os outros homens, como um passo na direção da boa vontade universal, reconhecendo que há certos padrões morais e espirituais básicos que, quando praticados, assegurarão uma vida mais nobre e mais completa.*

 

O rotariano que tiver seriamente considerado esses caminhos da paz, poderá indagar: "O que mais é preciso"?

Certamente esses seis caminhos – o do patriotismo, da conciliação, da liberdade, do progresso, da justiça e do sacrifício – representam um epítome de ação corajosa alimentada pela visão. Eis aqui a concepção equilibrada de um homem de visão:

um patriota cujo orgulho das contribuições feitas pelo seu país se eleva acima de todas as asserções de superioridade nacional ou racial;

um resoluto defensor da liberdade de todo o ser humano;

um otimista que contribui com vigor ao melhoramento dos padrões de vida;

um realista determinado a defender a justiça pela aplicação dos seus princípios em todo o mundo;

um homem que está disposto a fazer sacrifícios pela paz.

Que outra coisa precisa ele, a não ser a força espiritual para sustentá-lo ness busca da paz?

Este sétimo caminho tem que reconhecer que o homem não vive de pão apenas, que neste mundo de ideologias diferentes, a causa da confraternização mundial deve projetar-se além das considerações materiais para abranger o que constitui o significado maior da vida. É pois, uma causa prática – luta contra males específicos, como o preconceito, a tensão, a pobreza e a injustiça. Deve ser igualmente positiva na esfera mais profundamente humana da praticabilidade – dar significação à vida do homem e tratar de encontrar respostas às eternas perguntas: O que significa tudo isso? Por que estou aqui?

Cabe ao Rotary propor tal caminho? Se este sétimo caminho fosse esposar esses ensinamentos, estaria saindo fora das funções e do domínio do Rotary. Esse fato deve ficar bem acentuado. A fim de desfazer quaisquer concepções erradas basta citar a resposta categórica que um Presidente do Rotary International deu a uma grande entidade religiosa:

O Rotary não é uma associação secreta. Não tem segredos ou juramentos de espécie alguma. Todas as suas reuniões, atividades e registros são documentos públicos.

O Rotary não pretende suplantar ou interferir com qualquer organização religiosa ou caritativa.

Há muitos anos atrás, por deliberação da Convenção, o Rotary International declarou: "Espera-se que cada rotariano seja um membro leal da sua igreja e que exemplifique pessoalmente pelos seus atos os princípios da sua religião."

Os requisitos de ingresso no Rotary não exigem informações referentes a raça, religião ou idéias políticas.

O Rotary dá por assentado que o seu programa de servir está de acordo com todas as religiões.

 

A palavra chave desta declaração é "leal". Espera-se que cada rotariano seja leal à sua igreja. E o Esboço das Normas vai além ainda, encarecendo que procure compreender bem as lealdades de outros homens como requisito essencial para a realização das finalidades da vida. A falta de boa vontade para compreender as pessoas com diferentes concepções constitui um grande problema dos nossos dias. O Rotary congrega homens de diferentes crenças religiosas em um companheirismo de respeito mútuo. Nesse ambiente de respeito mútuo, as relações sociais são amplamente projetadas e derivam em grandes amizades.

Consideremos que se difundam no mundo inteiro as simples maneiras de um Rotary Clube: a saudação amistosa, a conversa salutar na reunião, o intercâmbio de experiências, a simpatia cada vez maior. Poderia esse processo familiar ser desenvolvido entre os povos agora separados por barreiras de suspeita, amargas memórias e diferentes concepções? E, poderia essa amizade mundial auxiliar a cicatrizar as feridas da humanidade? Se assim fosse, veríamos realizado o sonho do poeta Whitman:

Sonhei que vi uma cidade invencível aos ataques de todo o resto do mundo. Sonhei que era uma nova cidade de amigos, a única cidade que perdurará, a única cidade que é inexpugnável, a nova cidade de amigos.

Muito da instabilidade espiritual que caracteriza a sociedade industrializada e que, segundo a maioria das autoridades, está aumentando rapidamente, é causada, em grande parte, pelas pressões da sociedade. O indivíduo desnorteado pelos acontecimentos que ele não compreende ou que não pode controlar, faz uma inatrospecção. O que ele vê? Vê outros como ele. E descobre que ser concentrado em si próprio, ser auto-suficiente é somente uma parte de sua personalidade. Detrás da sua máscara de egoísmo há um ser verdadeiramente espiritual que se preocupa intimamente com os seus semelhantes e que a eles está vinculado. Esse é o dinamismo interior que se projeta nos demais, ao se perceber que o homem – como disse Paul Tillich, não é uma "coisa entre coisas"- é uma pessoa.

No drama Peer Gynt, de Ibsen, o diretor de um manicômio explica os distúrbios mentais dos seus pacientes. Os que descreve sofrem de ansiedades psicopáticas acerca de si próprios, não de outros:

Fora de si? Não, estais equivocado. Aqui é que os homens são mais eles mesmos, deslizando com as asas abertas do seu próprio Eu, barris cerrados com o buião do seu próprio Eu, sazonados e conservados num poço de egoísmo. Ninguém derrama uma lágrima pelo infortúnio de outros ou se importa com o que os outros pensam.

Há um "Eu" universal na humanidade em seu mais alto grau e os observadores da evolução social têm provas de que se projeta a outros, produzindo influências recíprocas. As conseqüências do "descobrimento interior" do Homem poderão ser graduais e as vezes incertas, porém são inequívocas. Aceita-se cada vez mais a idéia de que se uma pessoa for servir a si própria, deverá servir aos demais. Essa verdade é fundamental em Rotary.

Entretanto, dado o espírito da sociedade, há outro aspecto em tal reconhecimento. Um clérigo da Igreja da Inglaterra, conhecido pela sua destreza mental, expressou-se, certa vez, da seguinte forma: "Hoje", disse ele, "somos todos homens primitivos, cansados ou perplexos", resultado, segundo a sua opinião, do aumento e difusão de conhecimentos, da corrosão de crenças pessoais pela influência de outras crenças.

As atitudes e conduta recomendadas para o caminho da lealdade têm por objeto proteger-nos contra os efeitos corrosivos da diversidade. Em primeiro lugar, talvez, seja conveniente considerarmos mais a fundo esses efeitos em si. Como, por exemplo, reagirá o indivíduo que descobrir que as crenças de outros são diferentes das suas? Ele poderá ser um desses "homens primitivos". Quando lhe dizem que o mundo é cinzento, não branco e preto, ele enxerga vermelho. Considera como rival e inimigo todos que são de opinião diferente da sua. A lealdade de outros o irrita, queima os seus livros, perturba as suas assembléias. Procura proteger a sua própria lealdade, isolando-a; recorre a expressões fanáticas e violentas; provoca os vizinhos a tal ponto até que consintam torná-lo um mártir. Ele é o homem que vê o que quer e que ouve somente o que quer escutar. Ele se assemelha ao pregador ao fazer anotações sobre o seu sermão em certo trecho: "O argumento nesta parte está fraco – é preciso falar bem alto".

A reação beligerante na descoberta da diversidade ou fatos desagradáveis destrói a possibilidade de contribuição em qualquer um dos caminhos recomendados aos rotarianos. Não menos destrutiva é a reação alternativa dos "homens cansados". O seu interesse e energia são enfraquecidos pela sua incapacidade de tomarem decisões por conta própria. Da mesma forma que os "homens primitivos", eles exigem uma solução simples. A diversidade os desgosta e, freqüentemente, enfastiados de viverem cansados, fazem causa comum com os fanáticos. Uma horda dessas almas fatigadas é encontrada nas fileiras dos ditadores. Pode-se encontrá-las ainda entre os milhões que concluíram que afinal, o que pensam não tem importância, pois são os "outros" que tomam as decisões.

Segundo o clérigo, o resto da humanidade consiste de "homens perplexos" que não aderiram ao fanatismo nem se submeteram ao peso da vida. No entanto, confrontados com tantas doutrinas diversas, não sabem qual será a explicação dos mistérios eternos, como se relacionam com aqueles que acreditam nas explicações de outros. Estão sempre colhendo dados e informações, consultando novas "autoridades", ponderando sobre novas teorias e discutindo a pertinência da história. Essas são as pessoas que adiam as deliberações ou responsabilidades até que "tenham colhido todas as informações". Consequentemente, as suas decisões da maneira que são feitas, são "decisões de abstenções".

Para os "homens perplexos" o caminho da lealdade proporciona uma resposta que poderá liberá-los desse estado de julgamento suspenso. Lealdade significa tomar a responsabilidade e agir; tomar a responsabilidade de fazer algo maior do que si próprio e que seja projetado além de si próprio. Significa "descobrir" o ponto lógico e dizer: "É aqui o meu ponto de partida, minha base para fazer explorações. Porém, a partir de agora estou junto com os meus semelhantes e isso significa a participação de outros que compartilham da mesma devoção - a amizade profunda do homem pelos seus camaradas", como diz Whitman. Aos "homens cansados"o caminho da lealdade é apresentado como uma atração e estímulo para viver. Aconteça o que acontecer, há algo que o indivíduo leal poderá colher na sua comunidade: a aceitação do desafio dos espíritos indagadores, a satisfação derivada do serviço criador, o sentimento de segurança proporcionado pela responsabilidade pessoal. É lógico que o homem procure meios mais fáceis – as ladeiras, as soluções já prontas. Nesta era eletrônica e de automatização é natural que os homens procurem uma Lealdade Instantânea. Assim como é possível haver uma Guerra Instatânea, a lealdade e a paz deveriam, então, ser encontradas rapidamente. Porém, não se encontram.

Há um conto que demonstra a tragédia do "homem cansado" - a pessoa que por fraqueza ou preguiça, chega à conclusão de que a contribuição de um homem apenas não fará a menor falta. Alguém teve a idéia de fazer com que todos os habitantes da Terra gritassem: "OH!" ao mesmo tempo, para ser ouvido na Lua. No dado momento para o grito as pessoas estavam tão ansiosas de ouvi-lo que cada uma delas decidiu escutar, em lugar de gritar. Diz o conto que esse foi o momento mais silencioso da história.

Aos "homens primitivos" deve-se dizer que os outros são inspirados ao ver que alguém sabe por onde caminha – alguém que tenha satisfação pelo encontro com lealdades diferentes da sua origem e finalidade. O conhecimento e apreço da fortitude de convicções alheias tornarão mais firmes as suas próprias, como sucede aos viajantes que se encontram no caminho, reconfortando-se mutuamente. As relações humanas, o gênio de Rotary, são um ato que abre a imaginação – uma projeção da alma, na alma de outro ser humano, ou na de vários outros, ou na de todo um povo.

O Rotary amplia e multiplica esse processo para o desenvolvimento da compreensão, boa vontade e paz – com intensidade no clube, reunindo homens de diferentes vocações e crenças: extensivamente, através do companheirismo mundial rotário – em que todos os sócios têm a oportunidade de prestar inspiração e de ser inspirado pelos indivíduos de outras nações, culturas e tradições. O testemunho de um homem sobre o significado da vida fortalece o senso de significação de outros.

Entretanto, em numerosas ocasiões, a lealdade foi desacreditada. De que outra forma se poderia explicar a apatia religiosa, a mera freqüência nas igrejas, o enfraquecimento da família, o número de lares desmanchados, os freqüentes casos de traição à pátria, mesmo de pessoas com os melhores antecedentes e privilégios, o fanatismo selvagem e o vazio nas vidas de tanta gente? Para explicar-se essa atitudes há muitas razões de ordem social e econômica, porém teria sido isso se dado se o ensinamento da prática da lealdade não tivesso sido negligenciado ou barateado? Um escritor desiludido expressou as suas experiências da seguinte forma: "Pertencia àquela estranha raça de indivíduos que sempre dizem estar desperdiçando a sua vida, fazendo coisas que detestam, ganhando dinheiro que não querem, comprando coisas que não precisam, tratando de impressionar as pessoas que não apreciam". Que imagem de futilidade a absoluta falta de lealdade por tudo e por todos!

Conta-se que certa vez um vassalo se acercou do Príncipe das Trevas, no seu tempo, para lhe comunicar notícias más: em certo lugar da terra, alguém havia descoberto uma nova idéia. Por um momento, Satanás havia se sentido confuso e abalado, porém logo se recuperando e sorrindo, diabolicamente, disse: "Não se preocupe, ensiná-los-ei a por em prática a sua idéia".

Há em todo o mundo inúmeras menifestações da tendência para desvirtuar as boas idéias, para organizá-las de modo a perderem a sua perspectiva, para diluir o sentido com palavras e disfarces até que percam completamente o seu significado. Até mesmo o impulso natural das crianças de se agruparem à procura de um interesse comum é explorado e tratado como rotina. O setor esportivo que oferece ótimos meios de educação para a formação do espírito de equipe é freqüentemente corrompido pela ênfase exagerada na participação individual e receita de bilheteria. Certos momentos sublimes nos anos consagrados a manifestações religiosas ou patrióticas, têm sido deturpados para servirem a outros interesses.

Em muitos lugares do mundo, a lealdade tem sido pervertida em grande escala, por servir a fins imediatos sem tomar em conta quem ou o que possa ser sacrificado no processo. Nesse ambiente o Modo de Vida transforma-se em uma obsessão, o plano econômico em uma religião e as palavras substituem os feitos. A busca da Verdade deixa de ser uma descoberta baseada na observação ou fruto de experiência, convertendo-se em uma busca de fatos que confirmem axiomas preconcebidos. A regimentação e o totalitarismo polarizam as mentes, destruindo a Verdade. Nos países totalitários, a lealdade é sempre atacada. As crianças são treinadas como espiãs dos seus pais e professores. As idéias são censuradas por temerem que a lealdade com a verdade e justiça possam interferir com os objetivos so Estado. A amizade pessoal é desencorajada pelo temor da associação com as pessoas. Os grupos independentes de caráter social, religioso ou político estão sujeitos a perseguição.

No entanto, apesar dessas deprimentes circunstâncias, o sentimento de lealdade se recusa a ser derrotado. O fogo do martírio o faz brilhar mais claro e mais puro. Mesmo os terrores dos campos de concentração e o perigo de morte não conseguiram impedir que centenas de milhares de pessoas deixassem as suas pátrias para rfugiarem-se em partes do mundo em que ainda é possível a expressão livre e espontânea da lealdade.

Entretanto, não se deve interpretar erroneamente os motivos heróicos dos que arriscam tanto pela liberdade. É pertinente o comentário feito por um jovem aviador polonês que desertou da sua pátria, trazendo para o Mundo Ocidental o primeiro avião a jato russo, jamais visto, exceto em combate. Semanas mais tarde foi oferecido um prêmio de US$ 100.000 a todo o piloto de um avião MIG que repetisse a façanha. Como tal façanha não fosse repetida, pediram uma explicação ao piloto polonês. Disse ele que os que fossem se arriscar, somente o fariam pelo sentimento de honra

e de amor à liberdade, não pela recompensa material. A lealdade não pode ser comprada.

Porém, a pressão do materialismo tem criado obstáculos à lealdade. O mundo inteiro se agita para acumular ou conseguir bens materiais. As nações competem entre si na produção do aço, no carregamento de caminhões, na fabricação de toda a sorte de produtos. O símbolo de sucesso para a sociedade não são as suas grandes idéias ou os seus grandes homens, mas sim as "coisas materiais" que possam produzir. E, conquanto essas coisas ocupem lugar no processo de emancipação da humanidade, combatendo as privações, labutas, fadigas, qual é a razão dessa emancipação?

Essa situação é semelhante à de um casal que fez uma longa viagem de automóvel. A esposa via o mapa das estradas e dava as direções ao marido. De repente, a senhora exclamou: "João, veja, nos perdemos!"

O marido, pisando ainda com mais força no acelerador, disse-lhe: "Não tem importância – temos mantido boa marcha e ganho mais tempo!"

A humanidade vive numa era tecnológica, com máquinas à disposição de quase todos os problemas da vida, mesmo até no processo de pensar. "A marcha do progresso", já não é um meio, mas sim um fim; o propósito da vida deixou de ter importância. Não é surpreendente, pois, que nessas condições, o homem se sinta inclinado a antepor a ação ao pensamento, coisas a pessoas, progresso à lealdade. O materialismo sem a moderação da lealdade conduz, inevitavelmente, a atitudes que se caracterizam por: não há futuro, não há passado, somente há o presente.

Observando-se como a lealdade foi desvalorizada e perseguida, poder-se-ia concluir que é uma causa perdida. As aparências são muitas vezes tidas como realidade. Freqüentemente, no decorrer da história, as causas que pareciam perdidas inspiraram as mais altas expressões de lealdade. Essa força de lealdade não se manifesta pelos aplausos ao conquistador ou pela participação no carro vitorioso, mas sim nos momentos de maior desespero. Consideremos os destemidos mártires do Cristianismo desafiando o poderio romano; os patriotas que mantiveram, através de séculos, a lealdade para com as suas pátrias, depois que haviam sido varridas do mapa.

As experiências pessoais mais fecundas, também, poderão surgir numa ocasião em que a falta da presença da lealdade é mais fortemente sentida. Não são esses dias ocasiões de atribuições e de esperança incerta?

O estadista que exemplificou a vontade inflexível de uma nação que se encontrava só perante grandes dificuldades, expressou uma confiança que somente os acontecimentos subseqüentes a tornaram mais plausível. "As leis que governam as ações dos homens podem ser justas ou injustas", disse Sir Winston Churchill em discurso pronunciado nos Estados Unidos em 1949. "A tirania poderá aplacar ou regular as suas palavras. A maquinária da propaganda poderá entulhar as suas mentes de mentiras, negando-lhes a verdade por muitas gerações. Porém, a alma humana assim mantida em estado cataléptico ou letárgico durante uma longa noite, poderá ser despertada pela centelha de Deus-sabe-onde e, num instante, todas as estruturas das mentiras e opressões são postas terra abaixo. Os povos oprimidos e escravizados não devem nunca se desesperar".

Muitas manchetes espetaculares de jornais são inspiradas pelos homens que suprimem a liberdade, que abraçam metas egoístas e que exaltam a força bruta, homens cuja lealdade se mantém no nível do homem da caverna. As causas mesquinhas que abraçam, corroendo o espírito do homem, continuam aumentando as fileiras de suas vítimas, porém o espírito humano poderá reagir se for nutrido e inspirado por uma lealdade resoluta. O apelo do Rotary tem sido para a lealdade do homem – ao espírito altruísta, projetando-se de forma a unir-se a outros homens com o mesmo espírito. Patriotismo, conciliação, liberdade, progresso, justiça e sacrifício, representam um alvo de perfeição que é difícil conseguir. No entanto, os rotarianos possuem um profundo senso de lealdade ao companheirismo mundial que os une a todos os povos. A sua lealdade é expansiva, porém está bem ancorada em fundações que resistiram às correntezas e marés das suas comunidades.

A lealdade pertence ao que é chamado de "fronteiras invioláveis" do espírito humano, que não se submeterão aos testes de laboratórios. Os homens da ciência poderão reduzir o mundo a uma vizinhança geográfica, porém não poderão fazer com que os vizinhos se apreciem ou se respeitem. Não poderão, tampouco, "isolar" ou produzir os meios que, sistematicamente utilizados, possam criar o respeito e o serviço num mundo interdependente. É mais provável que as pesquisas desses gênios produzam vida do que amor. A última palavra pertence ao espírito.

Certo cientista, proferindo um discurso por ocasião de uma Convenção do Rotary International, fez uma breve descrição do Vale da Destruição Iminente – uma passagem que demonstra como a união dos caminhos do progresso e da lealdade poderiam conduzir à paz. O Dr. Donald H. Andrews, um químico, disse aos rotarianos e às suas famílias:

As mesmas experiências que nos deram a energia atômica nos estão proporcionando ... a visão atômica. Sondamos o interior do átomo e vimos que o átomo é mais do que matéria. Se o desejarmos em uma palavra, veremos que o átomo é música. E, devido a essa nova concepção, o fato de que a ciência revela algo que se encontra além da matéria, podemos abrigar a esperança no futuro, esperança de que podemos, enfim, construir este grande, maravilhoso e novo mundo de paz e de vida abundante para todos...

O que é essa força misteriosa em cada um de nós que domina e controla esse vasto fluxo de átomos que por nós passa em cada instante de nossas vidas? Hoje, a ciência afirma, como profunda verdade, que a quantidade que permanece constante no processo de transformação constitui a realidade mais profunda.

Aí se encontra essa centelha da vida, que poderemos chamar de espírito ou alma, se quiserem, e que de algum modo se mantém constante em nós, dominando essa vasta transformação que constitui a nossa vida. Temos aí, então, a suprema realidade. A ciência diz que a realidade que conhecemos e com a qual temos contato, a realidade suprema dominante, é o espírito humano. Bem, se considerarmos o universo exterior da mesma forma que consideramos o universo interior, teremos a mesma resposta. As estrelas são compostas de átomos. Os seus átomos cantam. A música das esferas celestes é algo mais do que uma mera fantasia de poetas. As estrelas estão cantando. E, à medida que consideramos mais além, na natureza do tempo e espaço, encontramos outra vez uma nova resposta...

O verdadeiro poder do universo não repousa na força destrutiva do átomo, mas sim na força do amor, o amor que devemos sentir pelos nossos semelhantes, o amor que o nosso Criador tem por nós e que devemos ter por Ele. E, em termos dessas novas visões da ciência podemos abrigar a esperança de criar esse novo mundo de paz, boa vontade e vida abundante para toda a humanidade...

Os rotarianos não podem oferecer uma fórmula mágica instantânea para criar esse novo mundo, porém eles se encontram em posição invejável de poder provocar uma "reação de cadeia" de companheirismo e serviço. O rotariano – como no processo de explosão do átomo – pode ser o catalizador de dois; esses dois poderão provocar a reação de quatro; quatro atingem oito e assim por diante. Eles poderão ter tal fé e visão que as suas lealdades inspirarão outros com a mesma visão.

O Rotary não tem soluções rápidas a oferecer a um mundo aatormentado, porém os rotarianos, individualmente, acreditam já ter aumentado a abertura do muro da má compreensão e desconfiança. Com cada dia que passa, através de uma investida de companheirismo e serviço, eles apressam a demolição desse muro. Felizmente, não lutam sozinhos e lhes dá coragem pensar que todos os homens de boa vontade estão unidos em espírito na busca universal da paz.


 

Impacto

 

Pouco antes da eleição, o bairro de Lambeth, em Londres, organizou uma exposição com o propósito de estimular os eleitores a exercerem o seu privilégio de votar no dia das eleições. Foi uma exposição muito interessante, apresentando episódios sugestivos da prolongada luta pela conquista do direito a voto, cartazes sobre as flutuações do interesse do eleitor em eleições passadas, mapas e modelos de novos desenvolvimentos planejados para o bairro, com breves biografias dos candidatos. Porém, a coisa mais atraente de tudo era uma caixa misteriosa. E letras grandes dizia:

ESTA PESSOA TEM A TAREFA MAIS DIFÍCIL

 

Os visitantes eram convidados a espiarem dentro da caixa por uma pequena abertura e a apertarem um botão que acendia uma luz, mostrando um espelho – a única coisa dentro da caixa!

Não poderia tal atração ser exibida por um Rotary Clube fosse ele realizar uma exposição dos serviços internacionais? Um espelho para o rotariano ver a si próprio!

Dramatizaria o pensamento da comissão de serviços internacionais de um Rotary Clube na Dinamarca ao terminar um ano de esplêndidos trabalhos:

O trabalho internacional tem que ser empreendido por todos os sócios do clube. A comissão de serviços internacionais não é uma agência ou departamento único e separado do clube. A comissão dirige, orienta, informa, auxilia o indivíduo, o sócio, em todos os assuntos relativos aos serviços internacionais, a fim de que ele possa desempenhar a sua parte nesse serviço rotário essencial. Como rotariano a responsabilidade é SUA.

Esse conceito foi a base do programa de um presidente do Rotary International, que apelou aos rotarianos a que procurassem os seus "caminhos pessoais da paz". Essa exortação cria a obrigação de fixar-se metas pessoais, de estudar cada fase do panorama local, a fim de verificar-se onde o serviço e a informação poderão ser úteis. Não se trata de ditar ao rotariano linhas de conduta, mas sim de auxiliá-lo a fazer o que ele sabe que deve fazer, persuadindo-o de que, o que fizer é importante. Deve ficar bem entendido pelos rotarianos e não rotarianos também que o impacto do Rotary resulta de suas ações individuais.

"Depois de anos de concentrado esforço", escreve um rotariano da Nova Zelândia que iniciou o estudo dos sete caminhos, "o problema central continua sendo o mesmo. Estamos ainda procurando encontrar meios e modos de captar a imaginação do rotariano. Há oportunidades, há informações, há o desejo de aproveitá-las pela maioria dos sócios. No entanto, temos ainda que persuadir o indivíduo de que seu esforço, conquanto pequeno que seja, afetará os resultados finais".

O que poderá fazer o rotariano? O que já fez? Que oportunidades tem o rotariano porque ele é rotariano? Tem ele aproveitado essas oportunidades? Essas são apenas algumas perguntas que o rotariano poderá fazer – o os não rotarianos também – quando ler a história de outros rotarianos e quando for avaliar os seus próprios movimentos no seu "caminho pessoal da paz".

Em primeiro lugar deve ser dito que ser rotariano oferece vantagens e oportunidades que a maioria não tem. O rotariano pode abrir o seu "Official Directory" de mais de 10.000 clubes em mais de cem países, colocar o dedo ao acaso no nome de um clube e dizer - "Tenho aqui um amigo". Ele poderá escrever uma carta pessoal ao presidente ou secretário desse clube e esperar uma resposta. Poderá visitar esse clube no dia da reunião e ser recebido calorosamente como um amigo. Poderá ser recebido nos lares e locais de trabalho de qualquer rotariano. O respeito e a sinceridade com que os rotarianos se tratam têm grande significação.

Os rotarianos viajam muito. Nestes tempos modernos em que não há lugar no globo que não esteja a apenas algumas horas de distância, as viagens a outros países são fáceis e atraentes. Milhares de rotarianos viajam a outros países, todos os anos, e o número está aumentando. A "recuperação" da freqüência em outro clube não é apenas uma necessidade, mas um privilégio que o rotariano não deixa de aproveitar.

Imaginem a experiência de tal viajante. Antes da sua partida, os seus companheiros pedem-lhe que visite o maior número de clubes possível. Ele poderá levar consigo o "passaporte" simulado, disponível com o Rotary International, que contém espaços para a anotação dos locais de reuniões dos clubes que ele poderá visitar. Ele poderá ser autorizado, com o beneplácito dos dirigentes do clube, a convidar os clubes para colaborarem em projetos dos serviços internacionais.

Quando ele assistir a reunião de um clube em outro país, não comparecerá como um estranho ou "estrangeiro", mas sim como o "companheiro rotariano". A sua conversa com os vizinhos de mesa, durante o almoço, as ligeiras palavras que poderão pedir-lhe para dizer, a mensagem de boa vontade do seu clube, são de grande significação. Os visitados não se esquecerão desse companheiro, especialmente se a visita for feita a um clube pequeno ou a uma comunidade remota. E isso não é tudo. O visitante poderá ser convidado à casa de um sócio ou ao seu local de trabalho. Poderá haver uma entrevista no jornal local ou um programa de rádio e, ainda, poderá fazer uma palestra na escola da comunidade sobre o seu país.

Muitos Rotary Clubes devido a sua localização perto de fronteiras internacionais podem realizar encontros pessoais com outros rotarianos. As hostilidades entre nações freqüentemente são iniciadas em incidentes nas fronteiras. Os rotarianos que residem nesses locais – e há muitos – têm a responsabilidade especial de ver que todos os assuntos ou atividades sejam levadas de modo a fomentar a boa vontade internacional.

É algo que pode ser realizado. Está sendo realizado todo o tempo. Em certo lugar, há um parque consagrado à paz internacional que se estende a ambos os lados da fronteira entre dois países e que se deve à iniciativa e apoio do Rotary. Em outro lugar realizam uma grande reunião, com a participação de centenas de rotarianos do país vizinho, ano após ano. Sob os auspícios do Rotary, crianças de escolas se visitam mutuamente. Aviões são contratados para transportar todos os sócios de um clube a outro país por ocasião de reuniões interclubes. A famosa estátua de Cristo, que os rotarianos da Argentina e do Chile dedicaram como símbolo da paz, levanta-se imponente nos picos dos Andes. Toda a sorte de intercâmbios são realizados pelas comissões interpaíses que se empenham em contínuas atividades na Europa. E na Índia, temos esta nota de uma missão de Rotary no Paquistão:

Quase 200 rotarianos de cada cidade e povoado, que representavam a fidalguia de Rajastan, a sagacidade de Sarastar, o comércio e a indústria de Gujarat e o passado da Índia Central dirigiram-se a Karachi, em uma missão do Rotary, como embaixadores da paz e da boa vontade.

Se fosse possível multiplicarmos as ações de fronteira, como essa, se cada rotariano que viajasse se empenhasse em uma missão rotária para o seu clube, poderíamos realizar muito no desenvolvimento da compreensão e boa vontade.

"Conheça o vosso vizinho, converse com ele que haverá paz".

Um rotariano da Índia comenta sobre esse antigo provérbio sâncrito: "É uma linguagem simples, porém de grande significação. Encerra não somente um apelo ao Rotary, mas estou convencido, também, de que o Rotary é o organismo melhor equipado do mundo para alcançar essa finalidade principal da civilização".

Nem todos os rotarianos estão em condições de poder viajar a outros países, porém a maioria pode receber os viajantes ou, talvez seja mais prático, podem se corresponder entre si para efetuar um intercâmbio de idéias interessantes. As amizades pessoais entaboladas através da correspondência internacional, como em todas as fases do Rotary, não são desenvolvidas como um fim em si, quão agradáveis possam ser, senão "como uma oportunidade de servir". O que essa oportunidade poderá oferecer é uma questão a ser descoberta pelos correspondentes. Em um caso, poderá haver um esclarecimento para uma melhor compreensão de algum problema. Em outro, poderá haver um intercâmbio de livros e revistas para serem entregues a bibliotecas locais. Ou, ao tomar conhecimento dos esforços de outros clubes para o bem estar da sua comunidade, o rotariano poderá sentir-se inspirado a oferecer o seu auxílio também. As possibilidades são tão variadas quanto as necessidades da humanidade.

Por onde devemos começar? Eis o ponto da questão. Um rotariano da Noruega encontrou a resposta na viagem ao redor do mundo. Antes de iniciar a sua viagem escreveu cartar aos Rotary Clubes localizados no seu itinerário. Ele foi alvo de esplêndidas recepções durante a viagem. Poderá ser que exista algum interesse particular, por razões profissionais ou de outra índole, quando se escolhe um certo país como ponto de partida na busca da compreensão internacional. Talvez haja uma certa hostilidade contra um certo país , manifestada em conversas com um vizinho ou nos comentários de um colaborador da imprensa ou do rádio. Por que então não escrever aos rotarianos desse país e pedir, com diplomacia, esclarecimentos.

Nesse caso, a seguinte declaração da norma deve ser cuidadosamente examinada:

O Conselho Diretor do Rotary International compartilha com os rotarianos a sua profunda preocupação pelas condições de dissensão existentes em muitas pertes do mundo; está muito satisfeito com os serviços prestados pelos Rotary Clubes e rotarianos a muitos outros casos de infortúnios; e reconhece a urgente necessidade de maior compreensão e boa vontade entre os povos do mundo.

 

O Conselho Diretor examinou as declarações e atividades de alguns Rotary Clubes que, conquanto bem intencionadas, resultaram, em alguns casos, em mal-entendido, má vontade e controvérsias.

 

O Conselho Diretor pede a todos os Rotary Clubes e rotarianos que intensifiquem os seus esforços, a fim de estimularem e fomentarem o desenvolvimento da compreensão e boa vontade entre os povos do mundo, observando sempre a norma já estabelecida do Rotary International e evitando escrupulosamente qualquer ação, pronunciamento, correspondência ou declaração publicada, que possam manifestar uma tendência que venha a causar um mal-entendido, criar má vontade ou retardar os esforços para conseguir e manter a paz.

 

A correspondência em grande escala tem proporcionado muita satisfação a inúmeros rotarianos. Um brasileiro prestou apoio à causa da compreensão internacional escrevendo 6.000 cartas pessoais. Os debates da comissão dos serviços internacionais de um Rotary Clube no Havaí são baseados na correspondência recebida pelos sócios. Um texano escreveu 12.000 cartas com o propósito de fomentar a correspondência entre os jovens de países diversos. É como disse um rotariano canadense que mantinha correspondência com 38 amigos rotarianos: "Por que um maior número de rotarianos não começa a escrever cartas? Não é difícil e garanto que é muito agradável e compensador. Aguardo com ansiedade as minhas cartas de clubes do exterior".

Mais de 1.500 Rotary Clubes em 60 países indicaram os seus interesses através do folheto "Alvos para Hoje" que é publicado anualmente e revisado pelo menos uma vez durante o ano com um suplemento. Talvez o seu Rotary Clube deseje selecionar um dos clubes mencionados nesse folheto para o estabelecimento do intercâmbio de correspondência.

Essa troca de correspondência poderá derivar em intercâmbios de programas manuscritos, gravados, filmes e diapositivos. Tais programas são os favoritos de centenas de clubes. Os melhores elementos dos clubes produzem o programa para o intercâmbio e fazem referências a certas pessoas do outro clube, a fim de acentuar o sentimento de amizade e companheirismo. O programa é apresentado na reunião ordinária do outro clube de um modo imponente, como um exemplo de Rotary em ação. Se o programa for manuscrito, os sócios que fazem a sua leitura assumem o papel dos interlocutores originais e são apresentados com breves biografias. Presta-se uma homenagem ao país, tocando o seu hino nacional, desfraudando a bandeira e propondo um brinde. Os residentes da comunidade, que sejam cidadãos do país homenageado, são convidados de honra na reunião e as notícias que sejam dadas pela imprensa local são enviadas ao clube que remeteu o programa.

A mágica da eletrônica poderá transmitir aos rotarianos de um outro país a conversa e outros sons da reunião do clube. Os filmes ou diapositivos poderão transmitir vívidas impressões das pessoas e cenas de outros países. Centenas de clubes apresentam interessantes programas combinando os diapositivos com gravações.

Naturalmente, tem que se considerar o obstáculo ocasionado pela diferença de idioma, porém há soluções. Em muitos casos, há alguém no clube que entende o idioma e que poderá traduzir a correspondência ou o programa manuscrito. Ao iniciar a correspondência os clubes devem esclarecer a questão do idioma, a fim de que ambos tenham liberdade de escrever em seu próprio idioma.

Os frutos colhidos pelo estabelecimento de amizade entre os rotarianos de países diferentes poderão parecer pequenos em comparação com a intensidade de males que afligem a humanidade. Há, portanto, maior necessidade ainda para multiplicar e intensificar esses contatos. O rotariano não se contentará apenas com uma carta ou um intercâmbio de programas. O seu esforço é contínuo. Utilizará os milagres da ciência para apressar esse contato, estendendo-o em muitas direções, cultivando as amizades que forem estabelecidas, desenvolvendo desse modo uma influência que se difundirá pelo mundo inteiro.

Além das atividades pessoais dos rotarianos na esfera rotária, que podem eles ainda fazer para estabelecer relações com os que não são rotarianos? Devem estabelecer essas relações?

Certamente! O rotariano representa um determinado negócio ou profissão no seu clube. A sua obrigação de transmitir o ideal de servir rotário a outras pessoas de sua profissão ou esfera de negócios, e à comunidade em geral, é de importância vital. Ele encontrará o seu "caminho pessoal da paz", porém conseguirá maiores resultados se puder convencer outros para que caminhem em sua companhia.

Isso significa, então, que uma parte significativa do impacto do Rotary é estender a sua influência além da esfera do Rotary Clube em si. É evidente que o objetivo do Rotary não poderá ser conseguido se essa influência se limitar a um grupo relativamente pequeno de rotarianos. O fundador do Rotary expressou, claramente, essa necessidade. "No fomento da compreensão e boa vontade internacionais", disse Paul Harris, "deve ser lembrado que é importante alcançar-se grandes números de indivíduos, rotarianos e não rotarianos, e não se poderá alcançar grandes números particularmente".

Por conseguinte, os rotarianos devem abrir as janelas ao mundo para as pessoas das suas comunidades. Eis aqui, realmente, uma resposta aos que duvidam dos efeitos práticos dos serviços internacionais. A compreensão internacional não será criada na estratosfera da política mundial, mas sim nas mentes dos vizinhos, entre as pessoas com quem mantemos relações comerciais e por intermédio dos meios locais de comunicação e de educação. A opinião pública é a soma das opiniões individuais e é a força mais poderosa do globo. A força de uma nação é medida pela soma das opiniões individuais que possam ser mobilizadas para apoiar a sua política.

Os legisladores e autoridades governamentais admitem, francamente, que uma carta que revele sinceridade e inspiração pessoal receberá maior consideração por eles do que petições esteriotipadas. Uma observação franca e honesta no decorrer de uma conversa poderá produzir profundas repercussões.

No senado dos Estados Unidos, atuou por muitos anos o rotariano Senador Charles Andrews, da Flórida, já falecido, que advogou com vigor a causa da compreensão internacional. Dizia sempre aos seus amigos que se lembrava do seu treinamento rotário toda a ocasião em que havia debates sobre relações internacionais. Quando lhe perguntavam como havia adquirido esse treinamento, respondia que poderia ter sido pelos discursos ouvidos sobre os serviços internacionais, porém a maior parte foi pela oportunidade que teve de aprender com os seus companheiros nas reuniões do clube. Naturalmente esses companheiros nunca poderiam imaginar que as suas observações e comentários durante as reuniões fossem contribuir para a formação de um estadista.

Os programas apresentados nas reuniões semanais oferecem excelente oportunidade de trocar idéias com os que não são rotarianos. Devido ao escopo e programa do Rotary, não há motivo para um clube realizar programas semanais "como qualquer outro clube". Os programas no setor dos serviços internacionais devem ser planejados segundo as necessidades da comunidade. As necessidades, naturalmente, variam de um lugar a outro. Por exemplo, a indagação das características de uma certa cidade poderá revelar preconceitos contra "estrangeiros". Muitos Rotary Clubes têm conseguido bons resultados com programas que reconhecem a dívida que cada nação tem com as outras nos setores culturais, artísticos e científicos. No progresso da humanidade todas as nações são partes integrantes de um todo. O mesmo se aplica em coisas materiais, tais como matéria prima, produtos manufaturados e mercados. Reconhecem os indivíduos a extensão dessa interdependência? Sabe o trabalhador ao tomar o seu café da manhã e ao utilizar o seu veículo para dirigir-se ao emprego, que nenhuma dessas coisas, nem outras mais no decorrer do dia seriam possíveis sem as contribuições materiais de outros países?

O interesse da comunidade ao fator da interdependência poderá ser despertado, organizando-se uma exposição das melhores contribuições de outros países. Freqüentemente, essas contribuições se encontram presentes, porém sem que a maioria das pessoas delas se apercebam. Uma cidade rural do Canadá surpreendeu-se quando o Rotary Clube realizou um festival em que muitas nacionalidades foram representadas, demonstrando as excelências de suas culturas. Os trajes regionais, as músicas folclóricas, danças e curiosidades de muitos países transformaram essa simples comunidade em um admirável empório de cultura cosmopolita.

Há, porém, outras necessidades que se relacionam a determinados problemas. Por exemplo, qual é a atitude perante a questão de guerra ou paz? Reina uma atitude otimista, construtiva e determinada na busca de soluções positivas? Ou se percebe temor, impaciência, prestes a explodir as massas de modo a levar as nações a caminhos desastrosos?

O que poderá fazer o Rotary Clube para acalmar os temores, estimular o desejo de obter informações e criar um ambiente em que se possa garantir a liberdade e justiça? Talvez nada, porém muitos clubes têm empreendido trabalhos construtivos nesse sentido e continuam empenhados. Tais projetos vão muito além da apresentação de um "programa sobre o assunto", ou seja um programa semanal que poderá apenas tratar da questão de forma breve e superficial. Neste caso, um programa significa uma campanha organizada e perseverante em que o programa semanal é meramente um dos instrumentos.

Felizmente, o Rotary não se encontra sem aliados nessa cruzada. Em todas as comunidades há pessoas e grupos com propósitos semelhantes que contam com determinadas esferas de influência e cuja colaboração poderá ser conseguida. A ação do Rotary na avenida dos serviços internacionais poderá ser orientada, nesse sentido, pela norma referente à colaboração com organismos existentes – se houver um – em lugar de criar um novo que venha a fazer a mesma coisa.

Muitos são os exemplos que poderiam ser citados em que esse princípio no setor dos serviços internacionais foi aplicado. Talvez o mais extraordinário seja o programa iniciado pelos rotarianos de Londres, em 1942, referente à organização de uma conferência de 21 governos para tratarem do intercâmbio cultural depois da guerra. Essa conferência tornou-se, posteriormente, a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura, mais conhecida como UNESCO, que é um organismo independente dedicado a fomentar a compreensão internacional.

Em circunstâncias análogas, o presidente do Rotary International foi convidado a indicar onze rotarianos dos Estados Unidos, que por sua vez, foram convidados a servir de assessores da delegação à conferência de San Francisco, quando a Carta das Nações Unidas foi formulada.

Conquanto o Rotary International seja reconhecido pelas Nações Unidas e UNESCO como assessor, não quer dizer que esse fato identifique o Rotary com essas organizações. A sua posição foi claramente formulada pelo Conselho Diretor do R. I. Em janeiro de 1952:

Conquanto o R. I. Se mantenha à margem dos dispositivos da Carta das Nações Unidas e das deliberações ou emendas das Nações Unidas, encoraja os rotarianos a familiarizarem-se com as atividades das Nações Unidas, dirigidas ao desenvolvimento da paz universal.

O Secretário Geral tem instruções para levar à atenção dos clubes informações sobre os programas e outros subsídios em conexão com o estudo da Carta e atividades das Nações Unidas para o desenvolvimento da paz universal. Constante publicidade será dada aos relatórios de observadores do R. I. que comperecerem a reuniões das Nações Unidas e de suas ramificações especializadas. Os rotarianos que desejarem apresentar uma proposta concernente às Nações Unidas ou a qualquer de suas ramificações especializadas deverão agir através dos órgãos governamentais legalmente constituídos do seu próprio país.

Muitos rotarianos do mundo inteiro encontram-se ativamente empenhados nos trabalhos das Associações das Nações Unidas da sua localidade. Devido à iniciativa de rotarianos muitos capítulos locais foram organizados.

Um exemplo, entre muitos, de uma patrocinada inicialmente por Rotary Clubes e que, posteriormente, transformou-se em projetos patrocinados pela comunidade, são os Institutos para a Compreensão Internacional. Durante treze anos, mais de um milhão de pessoas não rotarianas ouviram, anualmente, palestras proferidas por oradores – muitos deles de outros países – sobre problemas mundiais. Esses oradores participaram também de assembléias escolares. Através dessas reuniões centenas de Rotary Clubes puderam alcançar um grande número de pessoas. Posteriormente, muitas comunidades patrocinaram essas reuniões.

Em várias comunidades, mediante um método original, demonstrou-se a forma em que o Rotary Clube poderá colaborar com outros organismos, a fim de atender uma necessidade que não está sendo considerada por nenhum deles. Os cidadãos da comunidade que iniciou o programa em 1957 foram organizados em delegações que representavam muitas nações, com o propósito de realizar a conferência "Ponha-se no Lugar Deles". Esse método, já mencionado, proporciona um meio interessante e eficiente para atrair um "grande número de pessoas", no setor dos serviços internacionais. Constitui, pois, um dos "impactos" mais eficientes.

Durante o período de um mês, os "delegados" discutem os problemas mundiais mais importantes. A participação ativa de centenas de pessoas, esforçando-se para "colocarem-se no lugar de outros" - de uma naçãoa diferente da sua – provoca um interesse extraordinário. Vai além dos limites das comissões e sessões plenárias, a inúmeras reuniões privadas e conversações com o objetivo de conseguirem apoio para as suas recomendações. Isso constitui uma auto-educação, substituindo a instrução passiva por grupos que procuram forçar a opinião pública. De maior significação talvez seja a amizade pessoal estabelecida nessa ocasião entre as pessoas que representam pontos de vista completamente diversos.

Proporciona essa experiência uma pauta que os Rotary Clubes podem adaptar segundo os seus propósitos? A única coisa necessária é o impulso inicial.

Quanto aos líderes de amanhã, são inúmeros os modos em que os Rotary Clubes, com as suas amplas afiliações mundiais poderão contribuir para a educação da geração prestes a entrar na vida ativa. Um método muito usado é o patrocínio de clubes de relações internacionais. Correspondência e amizade entre os jovens são estabelecidas através dos Rotary Clubes do exterior. Os clubes japoneses, por exemplo, criaram grande interesse com o intercâmbio de desenhos das crianças de escola. Concursos sobre temas para a promoção de uma melhor compreensão têm sido levados a efeito sob os auspícios de Rotary Clubes de países diferentes.

Sem interferir de modo algum com o programa escolar, os professores ou administradores escolares poderiam informar os Rotary Clubes sobre a maneira em que os estudantes estão sendo instruídos sobre a humanidade. Fazem-no com um espírito universal ou provincial, segundo ilustrado na história contada por um ex-embaixador dos Estados Unidos na Índia. O seu filho, que acabara de regressar da Ásia, preparava-se para se matricular em uma escola dos Estados Unidos.

"Aposto", disse o embaixador, "que a história universal que você estudará se inicia com o Egito e a Mesopotâmia, continuando com a Grécia via Creta, depois Roma e finalmente com a França e Inglaterra".

"Mas isso não é história universal", retrucou o seu filho. "Desse modo faltariam três quartas partes do mundo".

"Infelizmente", respondeu o pai, "ganhei a aposta".

O intercâmbio de jovens é um dos maiores programas oferecidos aos Rotary Clubes. Nesse setor o Rotary tem proporcionado, através do patrocínio dos clubes e distritos, vários tipos de intercâmbio, além das Bolsas de Estudos da Fundação Rotária, cujo programa foi iniciado em 1947.

Os benefícios oferecidos pelo programa da Fundação Rotária têm sido muito apreciados pelos rotarianos do mundo inteiro. Mais de 1.200 estudantes formados já estudaram em países diferentes dos seus de origem, sob os auspícios do Rotary. As experiências relatadas nos seus relatórios e comentários de outras pessoas poderiam encher vários volumes. Anualmente, fazem palestras que são ouvidas por mais de meio milhão de pessoas. Os seus artigos e entrevistas no rádio alcançam ainda um maior número de pessoas. E, não menos importantes são as provas de integridade e habilidade refletidas nas suas atividades. Evidentemente, eles se encontrarão entre os líderes de amanhã.

Há uma característica que distingue o programa de Bolsas da Fundação Rotária: o grau de interesse pessoal, a amizade e a orientação proporcionados pelos rotarianos que residem nas cidades de estudos dos bolsistas. Os rotarianos os recebem em suas casas e lhes demonstram, de maneira objetiva, como a comunidade funciona. Nem todos os rotarianos aproveitam ess oportunidade única de auxiliar a formação de futuros líderes, porém a maioria o faz.

Os rotarianos receberão dividendos pelos seus investimentos na Fundação Rotária se aproveitarem a oportunidade de usar as aptidões desses embaixadores de boa vontade, exercendo influência no seu modo de pensar. Muitos bolsistas têm expressado as suas opiniões a respeito dessa oportunidade, porém a mais expressiva foi dita por uma senhorita quando falava aos clubes da Austrália:

Diz-se, de pilhéria, que quando se contruía a ponte "Golden Gate" em San Francisco, amarraram um fio de linha na perna de uma pomba que soltaram para atravessar a baía. Ao chegar do outro lado, uma corda grossa foi amarrada ao seu pé e na travessia seguinte um cabo e, ainda em outra, outro cabo mais pesado até que finalmente foi instalado o cabo que hoje segura a ponte. Agrada-me pensar que as Bolsas da Fundação Rotária se assemelham a isso. Elas são os fios que produzirão intercâmbios cada vez maiores entre os estudantes de todos os países, desejosos em adquirir uma compreensão mútua maior. No próximo ano, talvez seja uma corda e, finalmente, um cabo que ligará as nações, unindo todos nós em um mundo de paz. Sinto-me orgulhosa e agradecida pelo privilégio de fazer parte desse grande movimento dedicado ao desenvolvimento da compreensão mundial.

Os Rotary Clubes não somente têm contribuído generosamente para a Fundação Rotária, como também têm se valido dos seus próprios recursos para estabelecerem e patrocinarem o intercâmbio de estudantes. A Fundação Rotária patrocina o intercâmbio de estudantes já formados e os clubes e distritos, na grande maioria, patrocinam estudantes universitários que ainda não se formaram e estudantes de cursos secundários. Mais de 10.000 jovens viajam, anualmente, sob os auspícios de clubes e distritos.

Os patrocinadores de um desses projetos de Bolsas, iniciado em 1944, comentaram: "Lamentamos apenas não ter iniciado algo dessa natureza há 25 anos atrás". Outro programa responsável pela vinda de cerca de 300 estudantes à América, procedentes de vários países, foi empreendido sob os auspícios de um distrito e clubes conjuntamente. Uma das principais vantagens desse plano é o grande interesse que provoca nos clubes pelos "seus próprios estudantes".

Um número cada vez maior de clubes está percebendo que o patrocínio de visitas de jovens do exterior está ao alcance da suas possibilidades. A importância maior desses programas é o serviço pessoal prestado, em lugar do auxílio financeiro. Os jovens se hospedam nos lares dos rotarianos. As escolas locais, freqüentemente, dispensam a mensalidade pela oportunidade de contribuirem para a compreensão internacional. Ess oportunidade permite aos Rotary Clubes de outros países selecionarem candidatos desejosos de empreender tal viagem e que estejam em condições de fazer as suas próprias despesas de viagem. Conseqüentemente, o custo com tal projeto para os clubes patrocinadores é mínimo. Um clube trouxe onze estudantes, procedentes de nove países, para passarem um ano na sua comunidade.

O programa de intercâmbio de jovens é uma prática estabelecida na Europa. Os governadores de distrito nomeiam as comissões que se encarregam de todas as providências. Em muitos casos, o intercâmbio apenas requer os gastos de viagem. A experiência de conviver com as pessoas de outro país, a oportunidade de aprender outro idioma e o estabelecimento de amizades e companheirismo através das fronteiras, são apenas alguns dos muitos benefícios obtidos. As excursões internacionais e colônias de férias se multiplpicaram na Europa. Um exemplo de como esses programas são apreciados é a história de um rapaz austríaco que foi de bicicleta até a Holanda para participar de um cruzeiro internacional, a bordo de um navio holandês.

As colônias de férias proporcionam ótimas oportunidades para o estabelecimento de amizades pessoais. Disse um rapaz alemão acerca da sua experiência:

Este campo de férias contribuiu mais ao desenvolvimento da compreensão internacional do que um grande número de políticos poderia ter contribuído em um ano. Se houver possibilidade de formar-se uma Europa unida, somente será possível se todos os países acabarem com os seus preconceitos. Estou certo de que a colônia de férias do Rotary Clube pode eliminar, com sucesso, esses preconceitos e, isso de modo algum, não é exagero meu.

Como demonstra em cada caso nestes programas de intercâmbio de estudantes, o mais importante é a ação pessoal. Seria em vão a viagem de uma multitude de jovens, através dos sete mares, se não se fizesse nenhum esforço para instruí-los em matéria de serviços internacionais.

Conquanto as bolsas da Fundação Rotária e outras visitas patrocinadas pelo Rotary ofereçam uma oportunidade natural para esse esforço, há ainda um campo amplo nos milhares de estudantes e jovens aprendizes que viajam ao exterior, sob os auspícios ou por conta dos seus parcos recursos. A maioria tem muito pouca oportunidade de ficar conhecendo melhor o país visitado e as pessoas. Dentre os milhares de jovens que anualmente visitam os Estados Unidos, calcula-se que 80 por cento deles não têm a ocasião de conhecer um lar americano. Provavelmente o mesmo se dá em outros países.

A importância de cultivar-se amizades desse modo é evidente quando se considera quantos líderes nacionais – quantos Nehrus, Nkrumahs e outros viveram no exterior. Se se sentiram isolados, vítimas de discriminações, o mundo sofrerá posteriormente as conseqüências. Um estadista mexicano, que muito contribuiu ao desenvolvimento da compreensão internacional, recorda os dias solitários que passou num quarto na cidade de Nova York. Graças à hospitalidade e amizade de uns vizinhos ele pode esquecer essa solidão, que bem poderia ter influenciado a sua carreira.

O rotariano que acolhe um estudante visitante na vida cotidiana do seu lar, apresentando-o aos seus amigos, mostrando-lhe como são conduzidos os negócios na comunidade e compartilhando com ele os simples prazeres da vida diária, não somente estará cultivando uma amizade pessoal, como também estará prestando um grande serviço ao seu país e ao mundo. As suas conversas com o jovem sobre os problemas mundiais poderão ser o motivo para que ele mais tarde venha a ser um valioso defensor da paz.

Entretanto, a maior oportunidade se apresenta, naturalmente, aos Rotary Clubes que se encontram situados nas imediações de universidades. Eles têm uma oportunidade constante de estabelecer amizades com os estudantes do exterior. Os rotarianos aproveitam bem essas oportunidades. Centenas de estudantes são recebidos durante os feriados de fim de ano. As escolas e igrejas os convidam para que façam palestras sobre os seus países. As contribuições econômicas e espirituais de caráter individual são generosas. Conquanto nos orgulhemos disso tudo, reconhecemos que é preciso fazer muito mais.

"Fazer muito mais"em todas as atividades refletidas no "espelho" constitui um desafio pessoal ao rotariano que lê a sua revista oficial e outras publicações rotárias. Numa organização do tamanho e escopo do Rotary, é essencial haver comunicação. Saber o que os outros estão fazendo, compreender como o fizeram, constitui uma inspiração, pois se a idéia se converteu em realidade em Hyderabad, poderá da mesma forma despertar interesse em Huntsville.

O desenvolvimento e sucesso do Rotary, afinal, deve-se à influência impulsora que é inerente ao espírito de servir e a história feliz, diz: "Também poderás fazê-lo – e melhor". Nesse processo de comunicação e inspiração a revista oficial do Rotary – The Rotarian, em inglês, e a Revista Rotária em espanhol – conseguem o maior impacto. Além delas, 22 revistas regionais também conseguem os seus impactos nas suas esferas correspondentes.

As publicações rotárias apresentam fatos e refletem idéias que são de interesse universal. Centenas de exemplares de livros, revistas e folhetos rotários são compartilhados com pessoas não rotarianas no mundo inteiro. Quando essas publicações são recebidas nos lares de cerca de meio milhão de rotarianos, apenas iniciaram a jornada.

A revista, por exemplo, é recebida por inúmeras escolas, bibliotecas, hospitais, salas de leieturas e em centenas de outros lugares em que se dá valor a publicações que apresentam fatos de forma exata e construtiva. Os seus artigos são utilizados como base para programas excelentes dos Rotary Clubes, em clubes sociais de senhoras dedicados a estudos e nos debates de grupos de jovens. Proporcionam, ainda, referências para os trabalhos escolares e muitos programas de rádio e televisão são baseados nos seus artigos.

Além de todos esses usos, as duas edições da revista servem de "texto"em centenas de classes de línguas estrangeiras, ou como suplemento importante do texto original usado. É a única revista de sua categoria registrada no "Reader's Guide to Periodical Literature" e a sua influência é evidenciada pelas milhares de reproduções de artigos que são solicitados pelos rotarianos e não rotarianos.

Estas são apenas algumas das imagens refletidas no espelho – parte dos serviços que enriquecem a vida do rotariano. Nenhuma pessoa, nenhuma publicação, poderia apresentar todos os serviços. Ninguém poderia mesmo citar exemplos de todos eles. A natureza do Rotary em si e a dos rotarianos que integram a organização, tornam sumamente difícil a tarefa de reunir exemplos de serviços. Os serviços dos rotarianos são prestados sem alarde e assim deve ser.

Os serviços internacionais do Rotary não são anunciados com toques de cornetas. Não procuram ser manchetes de jornais. Por conseguinte, este livro só expôs, desenvolveu e ilustrou alguns dos princípios professados pelos rotarianos e que servem de orientação no seu papel de cidadãos. Talvez esses princípios, resultado de mais de meio século de experiência com sucesso, mereçam ser considerados por pessoas que não pertencem aos Rotary Clubes. O Rotary não clama a sua posse exclusiva nem afirma os ter originado.

Há no pátio em frente ao prédio sede do Rotary International a "calçada internacional". As pedras que formam essa interessante calçada vieram dos mais variados lugares – da pedreira onde extraíram o mármore que foi usado no Partenon – do chão da Abadia de Westminster, dos despenhadeiros que se elevam a mais de três quilômetros de altura nos Andes peruanos, enfim, da maioria dos países em que o Rotary atua.

Essas pedras formam um desenho colorido; vermelho da Austrália, amarelo da França, cinza escuro de Singapura, rosa-cereja do Japão, azul da Suiça. Para poderem aguentar as inclemências do tempo, somente as pedras mais resistentes foram selecionadas e em cada uma delas há uma chapinha de metal com o nome do país, o ano da instalação do Rotary e o nome do primeiro Rotary Clube.

Unidas em função comum, essas pedras são testemunhas silenciosas e permanentes dos métodos e alvos do Rotary. Simbolizam o serviço e a amizade no mundo inteiro. Expressam ação, pois todo o caminho, quer seja estreito ou largo, de nada servirá se não houver pessoas desejosas de transitarem por ele.

 

... / ...

 

 

 

A seguir, o texto completo das Normas do Rotary International em Serviços Internacionais...


 

 

Normas do Rotary International em Serviços Internacionais

 

A Finalidade:

 

A finalidade dos seviços internacionais no Rotary é expressada pela quarta avenida de serviço, isto é, estimular e fomentar

a aproximação dos profissionais de todo o Mundo, visando a consolidação das boas relações, da cooperação e da paz entre as nações.

O ideal de servir do Rotary encontra expressão somente onde existe liberdade do indivíduo, liberdade de pensamento, palavra e reunião, liberdade religiosa, liberdade de aspirações materiais, e ausência de perseguição, agressão e medo.

Liberdade, justiça, verdade, cumprimento da palavra empenhada e respeito pelos direitos humanos são inerentes aos princípios do Rotary e são, também, vitais à manutenção da paz e ordem internacionais e ao progresso da humanidade.

 

Responsabilidade do Rotariano:

Espera-se que cada rotariano preste a sua contribuição pessoal para a efetivação do ideal preconizado na quarta avenida de serviços.

Espera-se que cada rotariano conduza a sua vida particular diária e as suas atividades comerciais e profissionais, de tal forma, que se torne um cidadão leal e servidor da sua própria pátria.

Cada rotariano, onde quer que resida, trabalhando como um indivíduo, deve ajudar a criar uma opinião pública bem informada. Essa opinião afetará inevitavelmente a orientação governamental concernente à compreensão e boa vontade universais para com todos os povos.

 

Como um rotariano de mentalidade universal:

(a) os seus interesses irão além do patriotismo nacional e compartilhará da responsabilidade para a melhoria da compreensão, boa vontade e paz internacionais.

(b) resistirá a qualquer tendência para agir em termos de superioridade nacional ou racial.

(c) procurará encontrar e desenvolver bases comuns para chegar a um acordo com os povos de outras nações.

(d) defenderá o império da lei e da ordem para preservar o direito do indivíduo de sorte que ele possa desfrutar da liberdade de pensamento, palavra e reunião, liberdade de aspirações materiais, e ausência de perseguição, agressão e medo.

(e) Apoiará a ação orientada no sentido de melhorar os padrões de vida de todos os povos, compreendendo que a pobreza em qualquer lugar ameaça a prosperidade em todos os lugares.

(f) Sustentará os princípios de justiça para com a humanidade, reconhecendo que são fundamentais e de cunho universal.

(g) Esforçar-se-á sempre para promover a paz entre as nações e estará disposto a fazer sacrifícios pessoais por esse ideal.

(h) Promoverá e cultivará um espírito de compreensão das crenças de todos os outros homens, como um passo na direção da boa vontade universal, reconhecendo que há certos padrões morais e espirituais básicos que, quando praticados, assegurarão uma vida mais nobre e mais completa.

 

Responsabilidade do Rotary Clubes

Os Rotary Clubes não deverão empreender qualquer esforço coletivo para influenciar governos, causas universais ou diretrizes internacionais, mas deverão devotar as suas energias para informar o rotariano individualmente a respeito desses importantes assuntos, de modo que ele adquira uma atitude mental esclarecida e construtiva.

Um Rotary Clube pode, acertadamente, proporcionar ocasião para a exposição de assuntos públicos, quando tal medida vise a fomentar a quarta avenida de serviço. Se os assuntos forem de controvérsia, é essencial que ambos os lados sejam adequadamente apresentados.

Quando assuntos internacionais forem expostos e discutidos num Rotary Clube, o orador deverá ser prevenido no sentido de evitar coisas que possam ofender os povos de outros países e dever-se-á esclarecer que um Rotary Clube não assume, necessariamente, responsabilidade pelas opiniões expressadas por oradores individuais em suas reuniões.

Um Rotary Clube não deverá adotar resoluções de qualquer natureza que tratem de planos específicos relacionados com assuntos internacionais. Não deverá dirigir apelos para ação pelos clubes de um país, aos clubes, povos ou governos de outras nações, ou divulgar discursos ou projetos para a solução de problemas internacionais específicos.

Em todos os casos em que existirem tensões internacionais entre países onde há Rotary Clubes, os clubes desses países devem usar da máxima precaução, assim como os clubes de outros países, pois qualquer ação poderá aumentar a má vontade e o mal entendido.

 

Posição do Rotary International

O R. I. se compõe de Rotary Clubes situados em muitos países, com muitos pontos de vista. Por conseguinte, nenhuma ação ou expressão de opimião coletiva será adotada ou formulada pelo R. I. sobre matéria política.

.../ ...